Meninos tímidos

bridget-jones

– Bem, então, como você sabe, meu nome é Daniel… risos… e… e eu voltei pro Rio há uns meses, tava em Londres, estudando, e… Esse barzinho é novo? Tanta coisa nova em Botafogo….

– É…o barzinho é novo… O chopp daqui é muito bom.. e…

– … e… então, que bom que a gente marcou… pra se conhecer melhor… conversar…

O nome disso? Menino nerd de sobrenome judeu e timidez britânica mandando um papinho de adolescente carioca. Poisé. Esses tipos ainda aparecem na vida de Alice. Em um momento de fraqueza (por olhos azuis quase transparentes), admito.

Hugh-grant-mugshot

Atores como Hugh Grant e Colin Firth (ambos britânicos e cinquentões, opa!) construiram uma base de fãs cuja fraqueza cultural e visual alimentava-se de seus personagens de sotaque originalmente aristocrático. Uma forte alternativa aos sarados de Velozes e Furiosos e demais produções do tipo pegação e violência em Nova Iorque.

Mas a vida fora do imaginário e das telas não é nada disso e o que a gente encontra é um bando de meninos E aí, vamos sair?, cuja postura vai do tímido não me beija senão apaixono e saio correndo ao brega-carioca que te chama de princesa e te dedica um pagode na jukebox ou no videokê.

Daí que a idéia de sair com caras bonzinhos (já que evito personagens do tipo pagode e Whey Protein) pode também ser cansativa. Mas caras bonzinhos, em algum momento da vida, até que cansam de ser tímido-bonzinhos. Então, há esperança out there!

Assim esperamos… Porque essa ‘educação sentimental’ que vem dos filmes nem sempre funciona. Se é que em algum dia já funcionou. Talvez na época de nossos pais, onde aprendia-se pose e elegância com Cary Grant e alguma rebeldia e bons penteados com John Travolta e James Dean.

Blue-eyed boy meets a brown-eyed girl
Oh oh oh, the sweetest thing

Conheci Daniel em uma circunstância acadêmica. Cenário ruim, pois há todo um contingente de pós-universitários que deixam a libido em casa e não voltam pra buscar. Mas Daniel era daqueles garotos que já no primeiro oi ficam excessivamente vermelhos, e meu ego na época achou isso bonitinho. Então bora dar uma chance pro menino que durante o coffee break do evento anotou meu email pra que pudesse me encaminhar alguma coisa que diante de seus olhos azuis e sardas eu não sinceramente não ouvi.

Daí passou uma semana, duas, um mês, e quando chegou o tal email eu já tava achando que era spam ou mensagem de algum peguete de festinha esquecida. Não, não era um peguete ainda, mas concordei em sair com o menino, que ficou vermelho e brindou com Bohemia o primeiro parágrafo deste texto.

A questão é: nada contra meninos tímidos. Mas, como tudo na vida, é preciso aprender a jogar com isso. E jogar da ‘maneira certa’, afinal, o behaviorismo que a gente aprende na escola taí pra isso, pra nos fazer entender… ou melhor, responder (ainda que desengonçadamente e com pouco sucesso) às respostas do outro que tá dividindo o bar com a gente.

Porque o importante é o clichê da tentativa. Sair correndo não evita apenas o sexo ou quiçá um singelo beijo; não tentar é deixar de conhecer esse alguém que, mesmo que não se torne um amante, por alguma circunstância desconhecida do destino está exatamente agora na sua frente, dividindo uma palestra ou uma cerveja, e compartilhando alguma inesperada afetividade contigo.

Deveríamos desde cedo aprender a não idealizar Hugh Grants. Porque Hugh Grants podem um dia querer uma vida menos acadêmica, tímida e perfeita, mas isso é algo que nem as mulheres e muito menos o cinema dizem pra esses meninos. Daí acontece isso, eles sorriem e mandam um email, e você fica sem jeito de dizer pro Hughinho que é ok não transar e muito menos se apaixonar, e que ele não precisa sair correndo por conta disso. Afinal, há infinitas formas de se estar junto. A gente só não tá é muito acostumado a viver assim…

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Quando o assunto terminar

Retira da bolsa um espelho, retoca os olhos e suspira. Enquanto o telefone não toca, um grupo de oito ou quinze garotos de vodka barata e campari nas mãos. Era domingo e a cidade era sua primeira companhia.

Alguns punks tentavam a sorte com meninas de all star e camiseta do Ramones. E aí? E aí. Beleza? Beleza.

Decidiu comprar pipoca. Do outro lado da praça, a multidão em direção ao ar condicionado e ao fast food do shopping. Calor demais em outubro.

A rua de camelôs escondia até suas sombras. Olha a promoção, tem óculos de sol tem bolsa tem iphone tem samsung tem pacote de amendoim!

Tentou não tropeçar nos populares e voltou pra pracinha. Calor demais e a mocinha de salto, pipoca salgada e esmalte vermelho.

– Tem horas, gata? – É… duas horas… ainda… – Valeu. – De nada.

Duas horas. Ainda. E a cada ainda lembrou do ex que também sempre atrasava. Culpa do trânsito, do namoro, da preguiça. Detestavam carros.

E a praça lotou de casais, desquitados e carrinhos de bebê. Não fora pelas crianças, até flertaria com o quarentão bonito que acompanhava o futebol de seus filhos.

Mas o calor era da Índia, e a maquiagem borrando e um moço cafona encarando. Antes só do que com um desquitado na pracinha.

– Aê tia, tem isqueiro?

Não respondeu ao punk, desligou o celular e seguiu pela cidade, entendendo que a vida só e em si também pode ser interessante e feliz.

You’ve got to find a way
Say what you want to say
Breakout

breakout

Feeling good e outras coragens

Pegou o café e gritou. Aconteceu no último domingo, dia de chuva e jogo do Flamengo, o episódio em que o senhor Oliveira abandonaria a cama, a mesa, a esposa e a poesia do Roberto.

Um casal pacato, na idade da aposentadoria, daí o estranhamento, onde já se viu, exclamou Dona Lucinha, deve é ter arrumado uma biscate no bar, já que como todo bom português dedicara sua vida ao comércio de alimentos para a alma e para o fígado.

Dona Maria de Oliveira não pensou duas vezes e às dez e quinze despejou na calçada um punhado de raiva e camisas do então falecido. Neste ritual de efetiva despedida, a rua indignada não chorou, e tampouco os filhos, que aos céus agradeceram por já terem um emprego e não ainda filhos.

É o tipo história que renderia um bom samba, mas a gente torce é pruma boa pensão, pra compensar a bravura de Dona Maria que acreditava que a dor não voltaria depois do casamento.

Daí hoje pela cidade, observando alguns poucos pares de mãos dadas, lembrei das muitas distâncias que viram traição ou quase-desquite. Ou as duas coisas, já que o não sei se o quero ou se volto pro ex é o que gente diz e ouve quase todo dia, e esse é um grande atraso para um relacionamento que já começa com essa cara de dúvida ou quiçá dívida. Ou as duas coisas.

(Salvo Dona Maria, que até ontem acreditou no para-sempre e no amanhã-de-manhã com bom dia.)

Pois bem, a metáfora do juntos vai além do grude e de alguma forma entendemos isso; mas quero é falar da coragem que vem do tombo, que nem sempre amoroso, mas da vida mesmo.

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Lembro de uma amiga que não deixou recado e sumiu por três meses. Férias de verão, o povo da escola de Carnaval e Skol na mão, mas cadê Julia, engravidou, fugiu de casa, ganhou na loteria?

Numa segunda-feira de março, em meio à ressaca do pós-fevereiro, eis que Julia e seu livros de pré-vestibular, magra e linda como nunca, colhendo baba e olhares de todo o colégio, ainda que nítidas fossem as dores de uma lipo e umas duas ou três modificações no nariz.

Mas nada disso importava, porque para os meninos status era maconha e academia, assim como para as meninas era o gabaritar em química e usar um jeans 38. Julia havia gasto a herança mas estava linda, então não havia com o que mais se importar.

Relevem esta adolescente ode à beleza, mas acho importante resgatar este fundo de estima que qualquer uma de nossas ações tem ou deveria ter – ainda mais se considerarmos que a qualquer momento o mundo do trabalho e o dos o homens (ou mulheres, conforme gosto) pode te dar um pé na bunda, independente de teus 40 ou 100 kilos.

Separação acontece tanto pra celebridade como pra tia portuguesa, e não adianta chorar que a gente tem é que aprender a lidar com isso.

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Ainda sobre a perda, dia desses um letreiro de 80% off numa loja desestabilizou minha micropolítica. Às favas o conceito!, peguei o Visa e fui pra loja, porque afinal eu mereço e whatever mais uma dívida.

Pois bem, loja lotada e um sem número de mulheres, todas fingindo que 42 é grande então por favor um jeans 38 larguinho.

Dentre as mulheres de aparência normal, dentre as quais Alice e seu casaquinho lindo que na promoção sairia por 49.90, vejo uma mulher de salto baixo coque e um terninho de gerente, mas com toda a alegria de uma guria que gasta a mesada num vestido pro seu menino.

Fiquei intrigada com a naturalidade da mulher que em meio ao alvoroço da promoção iria é provar um vestido do tipo caríssimo.

O que isso tem a ver com estima, dirão, senão futilidade mercantil? Acontece que a moça virou-se e pediu que eu a ajudasse a pegar um cabide lá do alto. Seria um natural gesto em loja cheia, não fosse pelo braço esquerdo ausente em tão natural e bela mulher.

marilyn monroe

Te falta um fígado ou um marido? Esqueça os pares idiotas e a Psicanálise, não te falta é nada. Cuide de você.

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alissia

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Rock estrela

– Alô, oi.
– Bora ver um filme, Alice?
– Oi Bruno. Filme?
– Filme e cerveja. Ou café, que tu é nerd ainda, haha. To passando aí.

Bruno, o bonitinho que sonhava em ser Eddie Vedder mas cursou Artes Cênicas, onde com seus olhos verdes participou de uns três curtas que eu disse ter gostado mas menti.

– Então gata, vou tentar o mestrado pra Cinema.
– Mestrado? Cansou de ser bonito? Haha.
– Cansei de te conquistar errado, Alice. Se eu virar Godard, quem sabe…
– Se voltar a ser Bruno, quem sabe…

Quem sabe. Porque com Bruno qualquer encontro poderia ser pra toda vida. Só que a gente sempre se esgota um do outro e percebe que é só nesse amor de amizade que no futuro poderíamos existir.

– Um dia a gente se encontra, no meio do mundo
– No meio de todo mundo

b

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alicecs

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Difícil não se apaixonar todo dia

Ele que me liga umas dez e pergunta s’eu to vendo a lua. Eu que de cansaço crescente nem reparei que hoje era lua cheia. “- Não vi, fotografou?”. “- Não, mas fiz um poema.” E fez, como um bom moço afeito ao erudito. E foi nessa erudição que duvidei de nossa vida juntos. Porque eu falo amor como um personagem dos anos noventa e isso por vezes é motivo de desquite. Deixa quieto.

Ainda assim o moço é amigo. Como um outro moço com quem juntos assistimos o sol nascer. N’alguma férias isso, em um litoral com um cais e um lago, bem coisa de seriado com trilha da Alanis Morissette. Te dizer que foi das coisas mais lindas esse amor de moleton e abraço e um céu em azul laranja e amarelo.

Mas ao mesmo tempo lembro dessa alguma coisa que deu errado e deixou a vida um pouco nublada na época.

Ainda assim o moço é amigo.

Daí ontem ou quinta, eu com uma cerveja na mão e ele com o cabelo comprido e grisalho, “- Oi Alice! Tá ruiva agora é?”, e ficou do meu lado de braço e perna encostada, encarando o bar a surpresa e a lua lá em riba. E a gente se apaixona sempre que o telefone não toca e ele tem que dizer que já tá acabando o curso, amor.

Ainda assim, não sei. Se, a gente, bebida, amor, não sei.

No momento, só sei que a Alanis já disse o que eu queria a todos os moços dizer.

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alicecsAlice
Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.