HODIE

noite-no-cemiterio

Eu fico aqui sentado neste lugar e pensando em tudo que aconteceu. Lembro-me dos meus erros e lembro os (poucos) acertos. Lembro que muitos caminharam ao meu lado, mas que eu sempre estive sozinho.
Eu poderia sentir um turbilhão de coisas, mas sempre que estou aqui eu me sinto em paz. Vejo tantas lápides ao meu redor, vejo tantas vidas que chegaram o fim. Vidas que eram tão importantes quanto a minha e que agora estão debaixo destes pedaços de pedra ou em covas rasas. Acho engraçado que mesmo aqui dá pra ver a diferenças das classes, mas todos estão sendo comidos pelos mesmos vermes. Estes sim não fazem distinção entre cor, credo, classe social ou opção social. Ok, eu fico meio mórbido e meio irônico, mas é culpa do ambiente. E digo que aqui só fica melhor quando a noite chega.

Eu vinha para cá e sempre encontrava pessoas zanzando por aqui, mas admito que nunca tive coragem de perguntar se eram vivos ou os mortos. Sabe como é, determinadas coisas não devem ser perguntadas. Sem contar que não faz diferença, vivo ou morto, quero só ficar na minha sem atrapalhar ninguém e sem que ninguém me atrapalhe.

crédito: Toninho Cury

crédito: Toninho Cury

E de noite cada sombra pode ser algo do além. Vejo os vultos, vejo o ventos nas árvores e nos mausoléus. O lugar ganha ares mágicos, parece que é um lugar mil vezes maior. Mais de uma vez fiquei perdido nas noites. Na verdade eu fico quase sempre perdido. Eu descubro novos caminhos e passagens. Mas já sofri acidentes também. Várias vezes cai em valas que iriam receber novos moradores. Algumas vezes subi em lápides que quebraram com meu peso e meu pé ia parar bem lá no lugar onde os ossos dos defuntos ficam. Já tomei umas pancadas de policias e até do coveiro. Por fim descobrir rotas de fuga e que o coveiro bebe as cachaças dos despachos que aparecem aqui. E que ele nem sai da toca dele se eu deixar na porta uma garrafa. ele bebe a dele, eu bebo as minhas e vivemos felizes.

Claro que eu tenho meu lugar especial. Claro que eu tenho os locais onde me sinto mais à vontade. Os locais onde eu me sinto mais conectado com este mundo. Por exemplo, este lugar em que estou, este pequeno ninho que fica entre alguns túmulos e que me permite ter uma visão ampla do céu e que me protege do vento frio que sempre rola por aqui. Daqui do meu ninho posso ver várias coisas, entre elas a seguinte inscrição em um túmulo:

Lápide com inscrições em latim.

“Hodie mihi, cras tibi” 
Hoje meu, amanhã teu. É das coisas que fazem pensar. Hoje estou aqui me sentindo fantástico, na certeza que posso tudo, mas amanhã serei mais um aqui embaixo. Mas só amanhã, porque hoje eu tenho toda a vida do mundo dentro de mim e que sou infinito. E vou embora deste lugar viver um cadinho lá junto dos vivos.

____________________________________________________________________________________________________________

jardelitoJardel Maximiliano

Nascido nas terras quentes da Zona da Mata, Jardel mudou-se várias vezes e neste período adquiriu toda sorte de experiencias e profissões.

Atualmente é Psicólogo Diplomado . Trabalha com Extensão Universitária e Cultura, além de ser conselheiro amoroso.
Canalha Sentimental por criação e membro Sócio Fundador do Manual.

Gosta de passeios à luz da lua e de fazer amor em lugares públicos e continua sendo homem para casar.