Eu não sou feminista [mas não me matem antes de ler o resto]

Existe uma velha piada judaica sobre um grupo de judeus rezando em uma sinagoga e assumindo perante o Deus a sua total insignificância. O Rabino se levanta e diz em voz alta: “Deus, eu sou inútil, sei que sou nada!” Logo após o Rabino, um rico comerciante judeu se levanta e também diz: “Senhor, também sou um inútil, reconheço o quanto sou pequeno, mínimo!” Terminado o acontecimento, um judeu pobre também se levanta e declara: “Ó Deus, eu sou nada…” Nesse instante o comerciante cutuca o rabino e sussurra no ouvido dele: “Quem esse daí pensa que é?”.

Se alguém vier me perguntar se eu defendo o direito ao aborto, responderei que sim. Se alguém quiser saber se acredito que a mulher é dona do próprio corpo e que ela, apenas ela, tem poder sobre ele… podem avisar que concordo. Se eu acho que a mulher não é responsável pelo estupro, que acredito ser um absurdo o fato de que mulheres realizem jornadas duplas ou triplas de trabalho, uma vez que seus companheiros não ajudam nas tarefas da casa, ou que acho uma lástima mulheres receberem salários mais baixos que homens nos mesmos cargos exercidos, tudo isso é verdade e assumo. Mas não posso compactuar com a intransigência das modas na internet e achar que isso é movimento político. Por isso aviso que também não sou de esquerda e nem defendo os direitos dos animais ou justiça racial. No Facebook não!

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Sinto falta dos memorandos enormes dos grupos trotskistas explicando porque eles são melhores que os outros partidos de esquerda. Problemáticos que fossem, alí tinha conteúdo e, acreditem, sempre existia alguém com paciência para ler o artigo inteiro e responder ponto por ponto. Parece que hoje tudo se converteu em uma guerra de memes nas redes sociais e “Aí de você se discordar de mim!”.

Fica difícil se definir como alguma coisa quando todo mundo se transforma em dono da verdade porque compartilhou uma imagem com uma única frase incapaz de resolver todas as contradições de um tema complexo pra cacete. Aí é misógino para cá… direitista para lá… preconceituoso… coxinha… classe média… gordofóbico… gayzista… comunista… petralha… fascista… tucano… e a lista não acabaria hoje. E eu que, inocentemente, chamava meus amigos mais aguerridos de pelegos e isso não era motivo para ser bloqueado… Bons tempos!

Meu espírito analógico não me permite certas virtualidades. Para eu acreditar que o peso está certo, eu quero ver o equivalente dele na setinha da balança. Não adianta as nomeações, ou melhor, auto nomeações. Como você se identifica é problema seu, quero saber das suas posturas no dia a dia, até mesmo porque um pseudo-feminista [pode colocar qualquer posicionamento político progressista depois do pseudo] pode ser bem mais charmoso que um de verdade, já que toda concordância dele [do pseudo] é milimetricamente planejada para levar a menina para cama, ou para arrecadar votos, ou público, likes etc. Acreditem, picaretas não andam com tatuagens de identificação ou qualquer coisa parecida. E o discurso mais fácil, assim como os caminhos mais curtos, quase sempre carregam ciladas. Desconfie de quem concorda demais com você.

Outra coisa que me assusta nas micro-políticas de internet é o tanto que, muitas delas, são micros mesmo… definem pela parte a causa para o todo. Daí saem aqueles frankensteins: negros misóginos, mulheres islamofóbicas, esquerdistas preconceituosos, defensores dos animais extremamente elitistas… Tudo se define como nicho de mercado e pouca diferença tem com uma propaganda de calçados ou refrigerante. Tanto faz, se o meu lado estiver garantido. Eu ainda tenho esperança que as coisas sejam feitas diferente na esquerda, não compactuarei com nada disso.

Há também a mania de tentar censurar o outro… mas isso é uma discussão para um outro texto, inteiro, completinho, só para esse tema.

Ainda acredito na minha capacidade em estar errado e no meu direito em acreditar, assim como o Humberto Gessinger, que “a dúvida é o preço da pureza” [sim, eu também acredito no meu direito de ser cafona]. Não existem unanimidades e repito a lógica do Nelson Rodrigues: se ela existir, ela será burra. Se perguntarem o que sou, digam que sou um canalha sentimental, uma contradição de termos… prefiro ficar por aqui. As pessoas que já acharam suas respostas estão nos seus caminhos, mas eu ainda estou na fase das perguntas e, mais importante ainda, na fase de debater com todo mundo pelo tempo que for necessário e com quantas palavras forem precisas.

Ps.: Acredito que tem muita coisa boa sendo produzida também… em breve venho linkar aqui uma lista mais otimista. Hoje é dia de desabafo.

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eumanual

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

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