Sexo, Moral e Videotape

Já começo o texto com uma noticia alarmante: 99% das mulheres que eu conheço fazem sexo! Elas fazem sexo das mais variadas formas e para completar, algumas delas transam também com outras mulheres. Algumas delas são frigidas, algumas adoram sexo oral e outras não abrem mão de anal. E a contagem só não chega a 100% porque algumas delas escolheram esperar e outras são freiras.
Sabe o que isso tudo significa? Significa que elas são normais! Elas não são doentes ou tem problemas psicológicos, não são vadias ou qualquer outro termo chulo que você possa inventar ou replicar. E mais ainda: Elas não cometem crime algum por viverem sua sexualidade. E graças ao preconceito, machismo e outras besteiras, estas mulheres muitas vezes se sentem desconfortáveis por quererem e gostarem de sexo.
Já ando a tempos estressado com este povo que julga os outros do autor do seu pedestal, seja ele religioso, de gênero ou cultural. Apontamos para as mulheres que transam com quem querem e dizemos: “Tá indo ali uma puta.”, “Fulana é vadia.”, “Sicrana é pra namorar e Beltrana não é.” Enquanto isso ficamos aqui com nossas travas, com nossos desejos não realizados, com nossa busca sempre protelada de felicidade. eu quero deixar bem claro que o fato da nossa vida ser medíocre não nos dá direito de julgar e atacar os que buscam uma vida plena e feliz. Apontamos o dedo para quem é livre num movimento de inveja e incomodo. Somos covardes e não vamos adiante na busca de realizarmos nossa potencialidade e no caso das mulheres, estas sofrem ainda mais.
Vamos pensar como a cultura apresenta a mulher:
– Nascem para ser mães.
– Só serão felizes se casarem e tiverem filhos.
– Devem casar virgens e não se importar com a experiencia sexual do parceiro.
– Podem até estudar, mas devem saber desenvolver bem as atividades do lar.
– Devem vestir-se de forma recatada para evitar que sofram qualquer violência ou ataque dos outros.
– (inclua aqui todos os itens que eu esqueci.)
Imagine o sofrimento das mulheres que vivendo sobre todos estes dogmas! Imagine crescer dizendo que você é o sexo frágil e que terá que apoiar sua vida na de um outro homem para poder ser feliz!
Mais de uma vez tive que lidar com mulheres que sofriam diante destas coisas, mas que as replicavam. Elas eram também agentes do sofrimento delas justamente porque desde sempre viveram ouvindo que aquilo era certo. Ficamos horrorizados com a forma com que as mulheres são tratadas em alguns países, mas esquecemos dos apedrejamentos diários que fazemos contra tantas mulheres no decorrer do nosso dia. Mais uma vez estamos apontando os erros dos outros e esquecemos dos problemas aqui no nosso quintal.
O Que fica na memória e o que fica na rede
Adoro filmes pornôs. Não tenho vergonha nenhuma em dizer, mas se uma mulher diz isso, logo causa espanto. Afinal, a mulher é casta e esta esperando marido, pensar em sexo antes do casamento é pecado! Se já pensamos assim, imagina quando uma mulher que não é do ramo, acaba sendo personagem de uma filmagem erótica!
RAMEIRAS! VAGABUNDAS! SE TIVESSEM SE DADO AO RESPEITO NÃO ESTARIAM SOFRENDO ISSO!
Pera! Para Tudo! A vitima agora é a culpada? Já não basta nas situações de estupro e violência, elas vão ser as culpadas quando um babaca qualquer divulga os videos íntimos destas mulheres? A guria participa da gravação, curte o momento e depois ainda é julgada por trocentos babacas. O Sujeito divulga os videos e ainda tentar se passar como vitima! E para piorar o sujeito reforça a fama de comedor enquanto a guria muitas vezes precisa sair do emprego, deixar de sair de casa e estudar. Sendo que ela não fez nada para merecer isso!
E fica martelando sempre em minha cabeça que é sem fundamento julgar estas mulheres, pois elas fazem o mesmo sexo que fazemos todos os dias com nossos parceiros. Elas transam e estão sendo felizes com isso, mas não nos contentamo em aceitar isso e as esprememos, massacramos, perseguimos até o momento em que muitas destas preferem tomar medidas extremas. E cada uma destas vidas estará profundamente marcada por cada uma de nossas violências.
Para piorar ainda mais o quadro, vivemos na era das redes sociais. Estas ferramentas estão servindo a um propósito perverso ao permitir que as pessoas possam dizer o que quiserem, sem sofrerem consequências imediatas e que muitas vezes nunca sofrerão. Se eu xingo uma pessoa na rua, a possibilidade dela reagir olhando nos meus olhos, seja com punhos ou palavras e imensa, mas pela internet temos este escudo que só faz aumentar nossa covardia e perversidade.
E vamos seguindo nossas vidas. Para as vitimas resta a vergonha e o preconceito, aos culpados, fica a consciência tranquila e penas pequenas. Para nós que julgamos e fazemos tanto escarcéu, fica só a espera do novo caso e da nova bruxa para queimarmos nas fogueiras do nosso preconceito.

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jardelitoJardel Maximiliano

Nascido nas terras quentes da Zona da Mata, Jardel mudou-se várias vezes e neste período adquiriu toda sorte de experiencias e profissões.

Atualmente é Psicólogo Diplomado . Trabalha com Extensão Universitária e Cultura, além de ser conselheiro amoroso.
Canalha Sentimental por criação e membro Sócio Fundador do Manual.

Gosta de passeios à luz da lua e de fazer amor em lugares públicos e continua sendo homem para casar.

 

Um dia lento

Viver na cidade é sempre esta coisa de correr para todos os lados. Em cada canto você precisa comprar algo para que você seja feliz. A velocidade é importante, o preço das coisas é importante. Mas você economiza tempo para o quê? Você economiza dinheiro para o quê? Já te digo irmão, você economiza tempo para correr mais, você economiza dinheiro para gastar mais e você continua sempre insatisfeito.

Você leva isso até para seus relacionamentos. Cria metas impossíveis para que a pessoa ao seu lado mantenha-se sempre tensa e buscando novas formas de te satisfazer. Mas Irmão, o que você faz para deixá-la feliz? Quais cuidados você dedica a ela? Quanto tempo você gasta olhando para ela, daquele jeito mesmo, direto nos olhos?

Me diz o que te faz feliz, me diz de que forma você consegue levar o dia para poder deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo. Mas não, assim que você fecha os olhos, todos os problemas do dia vêm para te atormentar. Sabe aquela coisinha que você não fez? Aquela coisa pequena ou grande vem para você. Sentam ali sobre o seu peito e te impedem de respirar bem, te impedem de ter o descanso (merecido?). E o dia seguinte não vai ser melhor. O cansaço vai acumulando, vai virando aos poucos o peso do mundo sobre os teus ombros e você comemora a sexta-feira. Sai com os amigos ou senta em frente a televisão para poder relaxar. Você bebe e come em demasia, vai jogando mais lixo pra dentro do corpo procurando uma forma encobrir suas frustrações. E na segunda pela manhã pede logo para a semana passar rapidamente e esta, numa espécie de castigo divino, vai se arrastando lentamente.

Mas hoje eu fico na janela, peço um tempo para mim. Saio mais cedo do serviço, pois preciso resolver um grande problema em minha vida. Eu preciso parar este ciclo vicioso que me oprime e vai sugando aos poucos meu desejo de continuar. É hoje eu estou infeliz e pouco me importo se o mundo vai surtar com isso. É meu direito não manter o sorriso falso nos lábios mesmo diante de todas as adversidades. Hoje vou resgatar meus sonhos, vou atrás dos meus desejos e doa a quem doer, hoje vou voltar a caminhar em direção à minha felicidade. Vou voltar a dar um passo de cada vez e não pularei etapas. Bem mais que chegar ao final, eu preciso aprender no processo para poder aproveitar realmente o que eu conquistei.

Estou saindo agora, mas eu preciso perguntar: Você vem comigo?

 

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jardelitoJardel Maximiliano

Nascido nas terras quentes da Zona da Mata, Jardel mudou-se várias vezes e neste período adquiriu toda sorte de experiencias e profissões.

Atualmente é Psicólogo Diplomado . Trabalha com Extensão Universitária e Cultura, além de ser conselheiro amoroso.
Canalha Sentimental por criação e membro Sócio Fundador do Manual.

Gosta de passeios à luz da lua e de fazer amor em lugares públicos e continua sendo homem para casar.

 

Eu não sou feminista [mas não me matem antes de ler o resto]

Existe uma velha piada judaica sobre um grupo de judeus rezando em uma sinagoga e assumindo perante o Deus a sua total insignificância. O Rabino se levanta e diz em voz alta: “Deus, eu sou inútil, sei que sou nada!” Logo após o Rabino, um rico comerciante judeu se levanta e também diz: “Senhor, também sou um inútil, reconheço o quanto sou pequeno, mínimo!” Terminado o acontecimento, um judeu pobre também se levanta e declara: “Ó Deus, eu sou nada…” Nesse instante o comerciante cutuca o rabino e sussurra no ouvido dele: “Quem esse daí pensa que é?”.

Se alguém vier me perguntar se eu defendo o direito ao aborto, responderei que sim. Se alguém quiser saber se acredito que a mulher é dona do próprio corpo e que ela, apenas ela, tem poder sobre ele… podem avisar que concordo. Se eu acho que a mulher não é responsável pelo estupro, que acredito ser um absurdo o fato de que mulheres realizem jornadas duplas ou triplas de trabalho, uma vez que seus companheiros não ajudam nas tarefas da casa, ou que acho uma lástima mulheres receberem salários mais baixos que homens nos mesmos cargos exercidos, tudo isso é verdade e assumo. Mas não posso compactuar com a intransigência das modas na internet e achar que isso é movimento político. Por isso aviso que também não sou de esquerda e nem defendo os direitos dos animais ou justiça racial. No Facebook não!

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Sinto falta dos memorandos enormes dos grupos trotskistas explicando porque eles são melhores que os outros partidos de esquerda. Problemáticos que fossem, alí tinha conteúdo e, acreditem, sempre existia alguém com paciência para ler o artigo inteiro e responder ponto por ponto. Parece que hoje tudo se converteu em uma guerra de memes nas redes sociais e “Aí de você se discordar de mim!”.

Fica difícil se definir como alguma coisa quando todo mundo se transforma em dono da verdade porque compartilhou uma imagem com uma única frase incapaz de resolver todas as contradições de um tema complexo pra cacete. Aí é misógino para cá… direitista para lá… preconceituoso… coxinha… classe média… gordofóbico… gayzista… comunista… petralha… fascista… tucano… e a lista não acabaria hoje. E eu que, inocentemente, chamava meus amigos mais aguerridos de pelegos e isso não era motivo para ser bloqueado… Bons tempos!

Meu espírito analógico não me permite certas virtualidades. Para eu acreditar que o peso está certo, eu quero ver o equivalente dele na setinha da balança. Não adianta as nomeações, ou melhor, auto nomeações. Como você se identifica é problema seu, quero saber das suas posturas no dia a dia, até mesmo porque um pseudo-feminista [pode colocar qualquer posicionamento político progressista depois do pseudo] pode ser bem mais charmoso que um de verdade, já que toda concordância dele [do pseudo] é milimetricamente planejada para levar a menina para cama, ou para arrecadar votos, ou público, likes etc. Acreditem, picaretas não andam com tatuagens de identificação ou qualquer coisa parecida. E o discurso mais fácil, assim como os caminhos mais curtos, quase sempre carregam ciladas. Desconfie de quem concorda demais com você.

Outra coisa que me assusta nas micro-políticas de internet é o tanto que, muitas delas, são micros mesmo… definem pela parte a causa para o todo. Daí saem aqueles frankensteins: negros misóginos, mulheres islamofóbicas, esquerdistas preconceituosos, defensores dos animais extremamente elitistas… Tudo se define como nicho de mercado e pouca diferença tem com uma propaganda de calçados ou refrigerante. Tanto faz, se o meu lado estiver garantido. Eu ainda tenho esperança que as coisas sejam feitas diferente na esquerda, não compactuarei com nada disso.

Há também a mania de tentar censurar o outro… mas isso é uma discussão para um outro texto, inteiro, completinho, só para esse tema.

Ainda acredito na minha capacidade em estar errado e no meu direito em acreditar, assim como o Humberto Gessinger, que “a dúvida é o preço da pureza” [sim, eu também acredito no meu direito de ser cafona]. Não existem unanimidades e repito a lógica do Nelson Rodrigues: se ela existir, ela será burra. Se perguntarem o que sou, digam que sou um canalha sentimental, uma contradição de termos… prefiro ficar por aqui. As pessoas que já acharam suas respostas estão nos seus caminhos, mas eu ainda estou na fase das perguntas e, mais importante ainda, na fase de debater com todo mundo pelo tempo que for necessário e com quantas palavras forem precisas.

Ps.: Acredito que tem muita coisa boa sendo produzida também… em breve venho linkar aqui uma lista mais otimista. Hoje é dia de desabafo.

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eumanual

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Amargo (Primeira parte da História do Escritor)

(Dica: O conto foi escrito ao som de “Led Zeppelin” e “The Rolling Stones”)

Tornei-me um escritor para escapar da fome. Comecei a escrever porque eu não tinha grana e via sempre ao meu redor tantas pessoas tendo tudo o que sempre sonharam sem precisar mexer um único dedo para isso. Da minha parte eu lutava contra o mundo para ter alguns trocados para que não faltasse nada em minha casa. Quando digo nada, eu falo o essencial. Arroz, feijão e um pedaço de carne (ou um pouco de carne moída).

Comecei a escrever porque eu não podia contratar profissionais para ouvir meus problemas. Um belo dia peguei um pedaço de lápis e por não poder gritar, coloquei toda aquela angustia ali. Tenho que admitir que foi aliviador. Poder escrever tudo aquilo que pressionava meu peito me ajudou a respirar melhor. Fiquei mais leve. Mas foi por pouco tempo, afinal a vida não para se acaso você precisa de um tempo para se recuperar ou aproveitar mais um bom momento. Aqueles papeis foram se tornando cada vez mais necessários, o ato de ter um lápis em mãos logo despertava a vontade de extravasar a angustia. Lembro bem que encontrei meu estilo logo após uma decepção amorosa. Não vou relatar agora aquele momento tão intenso. Só sei que perdi uma garota que considerava a ideal para mim. Foi porque eu sempre fui o garoto tímido.  Aquele garoto que nunca conseguia olhar-se no espelho e dizer que era bonito. Lembro que cada olhada eu só via selvageria, só via revolta, só via a necessidade de ferrar com o mundo de diversas formas diferentes, mas que enquanto isso podia sorrir de forma convincente para qualquer um. Enfim, naquela ocasião o papel se molhou com as lágrimas de um garoto perdido, que se sentia como a pior pessoa do mundo e que achava que não ia sobreviver àquela dor. Eu gostaria de voltar no tempo para aquele momento, me olhar nos olhos e dizer duas coisas:

  1. Você vai sobreviver a isso. Vai superar mais rápido do que imagina
  2. Você vai sofrer de novo inúmeras outras vezes e cada uma vai doer mais que a anterior.

Em todas as outras vezes eu acabei escrevendo também. Aquela era minha terapia, era meu desabafo, era a minha forma silenciosa de protestar contra o mundo e dizer que eu não estava satisfeito com a vida.

…Como todos devem saber eu me ferrei bastante.

Certa vez alguém acabou lendo um destes escritos. Acho que foi uma ex ou um amor passageiro (ela também mereceu um texto). A pessoa gastou um bom tempo com o papel na mão. Leu e releu várias vezes. Quando ela terminou estava com os olhos mareados e disse:

– Cara, você leva jeito para ser escritor. Só acho que você não precisava ser tão sádico com seus personagens.

Soltei uma risada bem alta. O Momento merecia. Alguém havia finalmente descoberto que minha vida só podia ser fruto de um ser superior com um sadismo forte, para completar esta impressão a pessoa ainda achou que era um personagem criado por mim.

-Tem mais aí?

E logo pegou mais dos meus escritos e foi devorando sentada no tapete do meu quarto.

Tenho que dizer que foi apaixonante vê-la de camiseta e calcinha sentada no tapete lendo. Foi neste exato momento que descobri o quão atraente é uma mulher quando esta concentrada lendo alguma coisa, preferencialmente literatura.

Quando ela foi embora aquele dia ainda pegou alguns cadernos e disse que me devolvia logo depois que os lesse. Só vi aquele material semanas depois. Encadernados, digitados, impressos de forma que parecia um livro tosco, mal cuidado e com manchas de tinta.

-Tai teu primeiro livro.

Sei que no momento fiquei meio bravo com ela, mas logo percebi que era a primeira vez que eu via aqueles escritos como uma forma diferente da que eu havia me acostumado: As lamúrias de um bebê chorão. Esta foi até o título que ele recebeu posteriormente.

Sei que andei bastante com aquele material debaixo do braço. Fiz fotocópias, mandei para editoras. Foram meses fodidos em que a esperança ia em cada pacote e voltavam transformados em humilhação e desespero em cada carta que chegava em resposta. Sempre recusando meu material. O Mais engraçado é que qualquer pessoa que eu conhecia e que acabava lendo aquilo elogiava bastante. Por mais que meu pessimismo quisesse me convencer de que eles estavam querendo apenas agradar, transparecia a sinceridade neles.

Foram tempos negros onde eu trabalhava como um burro durante o dia. Enquanto realizava trabalhos braçais e repetitivos minha mente viajava para uma mesinha cheia de papéis e aos poucos eu ia escrevendo mais e mais.

Como devem bem saber meus textos são sujos, ferem todas as regras gramaticais e surtam qualquer pessoa que não tenha vivido um pouco. Surtam qualquer pessoa sem cicatrizes, surtam qualquer sujeito mimado que não sentiu o peso da vida sobre os ombros. Meus textos falam exatamente sobre como vejo a vida, tento jogar no papel aquele momento em que você pode dizer que está vivo. É um relato de sobrevivência.

No que escrevo eu tento me salvar de qualquer desespero amoroso, tento ter por mais tempo aquela garota que acabou de me chutar pra escanteio e agora desfila com um sujeito que eu odeio. Escrevo tentando espantar aquela garota que quando foi embora quebrou os vidros do meu carro e riscou toda a lataria. E nem preciso mencionar que escrevo para tentar não ter medo que a incendiaria volte para terminar o serviço que fez em minhas coisas.

Um belo dia, logo após uma pessoa ler um dos meus textos, me disse:

-Cara, você escreve igual ao Bukowsky.

Fui logo indagando quem era o sujeito e diante da explicação da pessoa, acabei procurando um dos livros dele para ler. Foi suprema a sensação de encontrar um sujeito que via a vida do jeito que eu via. Ter alguém para compartilhar aquele ponto de vista. Aquele olhar. Li tudo que pude sobre ele e cada livro me fascinava mais.

Aquela descoberta ia mudar minha vida.  Justamente com uma garota: Ester. Bukowsky ajudou a tornar mais suportável minha vida. Ester era como um dia de sol em minha vida, era uma coisa que conseguia dar significado a tudo ao meu redor, mas ela acabou sendo um furacão que destruiu tudo em seu caminho e me deixou em cacos…

FIM DA PRIMEIRA PARTE

LEIA AQUI A SEGUNDA PARTE

Jardel “Bandido” Maximiliano

Pistoleiro da Madrugada

Canalha sentimental de coração vadio

Encontros e Despedidas

Certa vez perguntei para uma garota se ela achava que uma rodoviária seria um lugar romântico, lembro bem que estava interessado na sujeita e sabe-se lá porque cargas d’água eu fiz esta pergunta. Ela não teve tempo para responder, pois seu ônibus estava chegando, mas esta pergunta nunca saiu de minha cabeça. Seja pela ironia dela ou por não ter conseguido fazer naquela situação com que a rodoviária fosse o lugar ideal para nosso primeiro beijo.

Hoje após ter pedido um ônibus por conta de no máximo 2 minutos e precisar ficar duas horas esperando o próximo, aproveito para olhar em volta e tentar responder esta pergunta.

Rodoviárias sempre são locais impessoais, lugar sempre abarrotado e desconfortável. Vejo tantas pessoas ao telefone, algumas andando perdidas ou correndo para as plataformas. Vejo bolsas dos mais variados tamanhos e imagino o que aquelas pessoas levam ali dentro e se soubesse, gastaria toda uma vida imaginando o que aquelas coisas representam para aqueles sujeitos. Vejo pessoas de todas as idades e tamanhos, pessoas de todas as localizações, algumas estão iniciando a viagem agora e outras podem estar a dias neste processo. Vejo famílias inteiras. Pais lutando bravamente para manter seus agitados filhos sobre controle. Estes mesmos filhos correndo felizes, sorrindo, gritando somente para demonstrar que aquele ali também é um local de diversão. Vejo pessoas sozinhas também. Estas quase sempre com o olhar perdido. Muitas exalam uma tristeza tremenda.  Vejo ao longe um senhor chorando, mas longe de mim perturbar sua vida tentando consolá-lo. Pessoas tristes em rodoviárias merecem ter um tempo de sofrimento seu, poderem sentir aquele momento fortemente. Tai, rodoviárias são lugares de grandes emoções.

Já vi famílias separadas em rodoviárias. Já passei por muitos hospitais nesta vida, mas o lugar onde mais vi lágrimas foi nas rodoviárias. Vejo um casal que luta para não se separar, mas o motorista do ônibus já ligou o motor e está buzinando para que eles se apressem. Não que ele seja um sujeito sem coração, mas ele por ter visto tantos casos assim, já deve saber que a despedida deve ser feita rápida, sem muito pensar. Parando para pensar, querendo sempre o último beijo as rodoviárias não seriam lugares de despedida e sim de permanência.

Mas vejo também um senhor esperando na plataforma até que chega outro ônibus e dele desce uma senhora. O senhor com os olhos mareados a abraça e lhe dá um beijo nas bochechas. Dá pra ver que são casados e de uma época em que demonstrações grandes de afeto são reservadas para os momentos em que estão sozinhos. Uma criança grita o pai da janela do ônibus e este corre para a porta para ter seu filho nos braços.

Não dá para ficar impassível diante e tanta coisa rolando. Saio, dou uma volta, bebo uma água e é tanta emoção ao meu redor que chego a arrepiar. Meu coração bate diferente e dá um pulo cada vez que nos alto-falantes é anunciada nova despedida. Sei que ali estão indo amores, desavenças esperanças e uma infinidade de outras coisas. Sei que muitas pessoas e lembranças ficam para trás, mas que a chegada é a oportunidade de novas esperanças.

Mas chega o momento em que é anunciado o meu ônibus. Pego minha mala e desço as escadas sem olhar para trás. Como você deve ter percebido sou um destes sujeitos solitários. Na minha partida não deixo lágrimas e nem receberei beijos na chegada. Eu poderia estar triste com este momento, mas existe tanta coisa dentro de mim que parece haver uma tempestade tropical no espaço entre minhas orelhas. Respiro fundo antes de entrar no ônibus. Só assim para dar outro passo nos caminhos que um dia ainda me levarão a você.

Jardel “Bandido” Maximiliano

Pistoleiro da Madrugada

Canalha sentimental de coração vadio

P.S. Lhes deixo uma música que lembra bastante estes momentos:

Mande notícias do mundo de lá
diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
quando quero

Todos os dias é um vai e vem
a vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir
são só dois lados
da mesma viagem
O trem que chega
é o mesmo trem da partida
A hora do encontro
é também despedida
A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar
é a vida desse meu lugar
é a vida…

O Que eu bebi por você!

Clarice Falcão meu que pulou pela janela logo dentro dos meus ouvidos. Com músicas engraçadas e sentimentais me fizeram apaixonar!

Segue a que mais diz sobre minha vida amorosa:

O que eu bebi por você dá pra encher um navio
E não teve barril que me fez esquecer
O que eu bebi por você nunca artista bebeu
Nem pirata bebeu
Nem ninguém vai beber
O que eu bebi por você quase sempre era ruim
E bem antes do fim
Eu já tava à mercê
O que eu bebi por você me fazia tão mal
Que já era normal acordar no bidê

Cada dono de boteco e catador de lata agora te sorri agradecido
Se o seu plano era contra o meu fígado
Meu bem, você foi bem sucedido
Parabéns pra você

O que acharam?

FALTA TÃO POUCO TEMPO

Eu estive esperando por este momento por um ano. Começou exatamente quando entrei naquele ônibus em São Paulo e olhava pela janela esperando que você viesse se despedir. Eu sabia que você havia feito a promessa de não aparecer naquele momento, pois não gostava da situação, mas mesmo assim este bobo esperançoso queria que você não tivesse sido tão forte.

Voltei pensando em você e lembrando os momentos que passamos juntos. De como foi bom te conhecer e da forma como o destino une duas pessoas tão diferentes e do modo como estas misturas inesperadas têm resultados fantásticos. Você me conheceu em uma das festas mais loucas da minha vida. Vejo pelas fotos que meu estado era deplorável e infelizmente não me lembro de nada da festa antes de você. Na verdade quase todas as lembranças daquele evento se foram. Ficaram somente aqueles em que você estava presente.

E sinto agora com a proximidade de minha viagem que não sei se estou pronto. Tanta coisa para preparar, presentes que quero te dar. Preciso cortar o cabelo, fazer a barba e malhar. Protelei os exercícios e agora tenho a certeza de que meu corpo não está à altura do seu merecimento.

Preciso de um colchão para a barraca, pois quero o seu conforto. Lençóis novos para que você se sinta bem. E preciso de uma barraca nova, maior, do tamanho do meu desejo. Levo algumas iguarias: o doce de leite que você gostou, o queijo que provou e a cachaça que facilitou sua entrega.

Não sei, quis tanto este momento e agora a insegurança me bate. Tenho medo de não ser quem você espera e tenho a certeza de que você estará bem alem das minhas expectativas. Mas já vou lembrando que neste mundo é preciso coragem para gostar de alguém e contigo sei que esta qualidade não me falta. A cada dia que passa sei que você fica mais perto de mim.

O mais engraçado é que este tempo até te ver parece ser dez vezes maior, como se os segundos estivessem se arrastando somente para correrem mais depressa quando você estiver em meus braços. Os mesmos que não esqueceram o quão bom é envolver sua cintura e trazer você bem apertada junto do meu corpo.

Linda, o tempo passou e tá chegando o momento em que poderei olhá-la novamente e poder provar do teu beijo que me acompanhou durante todo este ano. Estaremos juntos novamente por uma semana em Cuiabá e sei que a cidade estará mais quente por conta de nosso desejo, por isso te prepara. Fique pronta para superarmos nossos índices de felicidade juntos. E você não perde por esperar este Nego que sonhou e te desejou por tanto tempo. E fica tranquila que vou entregar todos os beijos que guardei para você durante todo este ano.

Do Seu,

Jardel “Bandido” Maximiliano
Pistoleiro da Madrugada
Canalha sentimental de coração vadio