As aventuras da escrita de um amador – O Processo

máquina de escrever
Há algumas semanas eu enrolava para escrever estes textos. Eu imaginei pelo menos dez ideias diferentes e um sem-número de versões de cada uma. Eu queria escrever tantos textos, mas a preguiça veio atrapalhando minha produção. Mas pensando bem, não sei se é somente ela a responsável pelo meu problema.

Mais de uma vez eu sentei em minha escrivaninha e comecei os esboços. De alguma forma eu olhava para todos e encontrava os mais variados problemas para finalizar a escrita. Seja a distração advinda da internet, seja um senso crítico voraz e sem piedade das frases ainda sem tratamento. Cheguei até a terminar um texto e empacar logo após enviar para os meus leitores críticos (namorada e dois amigos). Mas porque eu não pegava logo um texto e ia até o final?

Admito que tenho um medo enorme de finais. Chega a beirar o pânico. Pegar a ideia, ir moldando, criando argumentos, conflitos e tramas é coisa bem tranquila se comparada com o final. Acho que quando vou me aproximando dos derradeiros momentos, preciso encontrar a melhor forma de despedir de algo criado por mim, um pedaço de minha dedicação e cuidado. Sem contar as tantas vezes que estraguei materiais interessantes com finais medíocres. E mais de uma vez salvei textos de argumentos nebulosos e confusos com finais bem produzidos.

Me angustia também saber que o material já está pronto para ser compartilhado. É a hora em que a minha produção sai para o mundo e irá enfrentar toda sorte de destinos. Já tive material utilizado em cursos, publicado m revistas virtuais, distribuído em eventos e até compilado em um livro que nunca foi publicado. Muitas produções tiveram destinos bem piores que o lixo, mas sempre preciso lembrar que isso está muito além do meu controle. Mesmo sabendo disso, o incomodo ainda me impede muitas vezes de trabalhar. Às vezes, tudo vem em forma de preguiça, falta de tempo ou tempo demais. Às vezes, são ideias em excesso impedindo um pouco que seja de concentração, mas aos trancos e barrancos alguma coisa sai.

Levando em conta tudo isso, cada produção é uma vitória. É o resultado de batalhas internas tremendas e que até mesmo o processo pode gerar boas narrativas. Quando termino sinto um alivio tremendo, como se o um peso do tamanho do mundo fosse tirando de minhas costas. Mas essa sensação não dura muito e logo a mente já fica agitada e uma pergunta volta a fervilhar:
Sobre o que escrevei agora?

Em tempo: Temos cá um ótimo texto falando também sobre este processo – http://www.andretimm.com/blog/13525606

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jardelitoJardel Maximiliano

Nascido nas terras quentes da Zona da Mata, Jardel mudou-se várias vezes e neste período adquiriu toda sorte de experiencias e profissões.

Atualmente é Psicólogo Diplomado . Trabalha com Extensão Universitária e Cultura, além de ser conselheiro amoroso.
Canalha Sentimental por criação e membro Sócio Fundador do Manual.

Gosta de passeios à luz da lua e de fazer amor em lugares públicos e continua sendo homem para casar.

 

Morto (Terceira Parte da História do Escritor)

A primeira parte da História do Escritor você encontra aqui e a segunda parte aqui

MORTO

É, rolou este lance de luz. Infelizmente não rolou o calor.

De verdade, eu senti cada machucado. Senti o meu corpo inteiro e ainda senti o chute que eu levei. Não sei que merda aconteceu, mas eu estava jogado na sarjeta e um malito qualquer me chutava. Eu adoraria revidar, mas infelizmente não tinha forças para isso.

– Acorda aí, o Cachorro.

– Me deixa em PAZ!

– Acorda, Porra! Você não pode ficar a eternidade aí.

– Eu morri?

– Rapaz, olha em volta. Você não tá no lugar onde você caiu. Me diz o que você acha.

-É, eu morri.

Veio assim esta percepção. Eu morri. Acabou tudo, eu estava já do outro lado e não era nada do que eu esperava.

Levantei-me a duras penas e olhei em volta. Estava em uma rua escura, fria. As únicas luzes visíveis era a de um poste e a do letreiro de um bar. O Cara que me chutou estava caminhando naquela direção. Sem opções segui para lá também.

Olha, era um bar muito vagabundo. Quando era mais novo chamávamos estes locais de pé de cachorro, muquifo, pulgueiro. Sentei no balcão ao lado do Sujeito e o garçom logo me deu um copo sujo para me servir da cerveja que já estava suando sobre a mesa. Enchi até o talo. Brindei com o sujeito e um pouco caiu no chão. Supersticioso logo disse:

– Este gole é pro santo!

– Largue destas baboseiras, aqui não tem santo nenhum.

É, o sujeito era uma ótima companhia.

O Silencio durou um bom tempo. O suficiente para que acabássemos a cerveja e outra fosse servida. Tomei coragem e pedi uma dose. Não lembro bem do que, mas parecia que tinham enchido o copo com soda caustica. Queimou bastante.

– Que burrada você fez lá, Rapaz. Eu já fiz muita merda nesta vida, mas nada comparado ao que você fez.

– Eu sei que fiz burrada – era verdade – mas não precisa chafurdar na minha cova.

– Rapaz, eu nem comecei. Pode preparar o lombo porque o chumbo vai ser grosso.

OK, vocês devem ter percebido que não fui para o céu. Na verdade eu me sentia a cada momento mais no inferno.

– Olha, não sei que diabos você veio fazer aqui. Fiz coisas suficientes na vida para merecer um lugar só meu e eles enviam um fedelho qualquer para cá. E ainda me dizem que você precisa de um bom papo. Bom papo o Caralho, você já tá ferrado e não precisa de mais esculacho.

– Você acha que eu pedi por isso? Você acha que eu capotei aquele carro porque eu quis? Que este era meu desejo: Acabar com minha vida e com as mulheres da minha vida?

– Eu sei que não, mas mesmo assim você vai pagar por isso.

Não sei quanto tempo ficamos ali. Sei que cada vez mais chegavam bebidas e eu ia sorvendo aquilo como se fosse a razão do meu viver. Ao invés de me anestesiar, aquelas bebidas só faziam aumentar minha dor. Aquele sujeito só ia contando suas histórias e a cada duas frases me xingava por algo. Minha vida inteira foi julgada naquele tempo que fiquei ali. Mesmo meus menores erros voltaram para me assombrar. Cada segundo foi de tortura e confusão, justamente por não saber para que servia aquilo.

Senti um alivio enorme quando o dono do bar disse que iria fechar.  Mas mesmo este momento veio acompanhado de uma reclamação do outro:

– Há anos eu estou aqui e nunca fecharam este bar. Você é maldito, rapaz. Você leva desgraça onde você for.

Engoli mais esta dose de sabedoria.

Chegando lá fora eu não sabia o que fazer. Olhava em volta e não havia para onde ir. Eu estava começado a ficar angustiado com aquilo. Nenhum lugar de proteção, nenhum lugar para me esconder. Havia só o poste e o sujeito.

Eu me sentia perdido, eu estava em completa desgraça. Eu era um miserável, um nada e ainda teria que ficar para sempre em lugar nenhum. Era isso. Caí no chão e comecei a chorar. Um choro forte, digno de pena. Um choro para extravasar toda a tristeza do mundo que eu carregava sobre os meus ombros.

O sujeito logo começou a reclamar:

-Era só o que me faltava. Como se não bastasse ser um miserável, ele ainda é um frouxo digno de pena.

Dizendo isso ele já foi logo me pegando e colocando de pé e dizendo:

– Olha eu sei do que você precisa: Uma boa luta. Mas não vai ser nada afrescalhado igual vocês fazem hoje. Vamos fazer como no meu tempo, vamos fazer uma boa luta de boxe.

Era só o que me faltava. Eu ali precisando ser consolado e aquele velho querendo brigar comigo. Ele já estava em posição de defesa, gingando de um lado para o outro e eu sem conseguir acreditar naquela situação. Até que veio o primeiro soco.

O Maldito tinha uma força tremenda. Mesmo diante dos meus protestos ele continuava me batendo. Tentei mais de uma vez revidar, mas ele sempre escapava e me acertava mais forte. Fui sentindo meu rosto inchando, meu olho mal abria e eu ali me perguntando porque aquilo tudo estava acontecendo, mas ao mesmo tempo eu sentia que eu merecia tudo aquilo por conta das merdas que eu tinha feito. Eu estava no inferno apanhando de um velho.

EU já não me aguentava em pé direito, tudo estava girando. Eu sentia minhas pernas enfraquecendo, logo eu iria desmaiar.

O Sujeito veio até mim novamente sorrindo disse:

– Você não deu nem para o cheiro, seu merdinha. Mas de uma coisa você pode ser orgulhar: A décadas ninguém havia levado uma sova do Magnífico Senhor Charles Bukowsky!

E me acertou com um gancho que me derrubou de vez. Eu sentia meu corpo caindo e caindo. Caindo cada vez mais, mas o chão parecia nunca chegar…

(Fim da Terceira Parte)

Jardel “Bandido” Maximiliano

Pistoleiro da Madrugada

Canalha sentimental de coração vadio

Ester (segunda parte da História do Escritor)

A primeira parte da História do Escritor você encontra aqui

Ester. Fico hoje me perguntando quantas vezes eu repeti este nome. Quantas formas e momentos diferentes eu o fiz. Este nome já foi gritado, já foi sussurrado e dito entre os dentes. Já disse seu nome enquanto chorava e também enquanto quebrava toda a casa. Já dormi tantas vezes dizendo este nome.

Ester apareceu do nada e desapareceu do nada. Reduziu a pó tudo que eu havia construído, materialmente e sentimentalmente.

Ester ligava de madrugada e com a voz embargada, relatava o que sentiu na noite enquanto tomava dezenas de comprimidos. Eu tinha certeza que ela era louca e admito que mais de uma vez desejei que os remédios acabassem com seu sofrimento. Ela gostava de brigas, gostava de confusão. Depois que a conheci emparelhei seu nome ao caos. Mais de uma vez a chamei de caos de saia.

Ester gostava de observar. Ficava parada por horas me vendo trabalhar. Foi assim que a conheci. Estava sentado em um café e lia o material que iria utilizar em uma reunião no dia seguinte e da janela vi aquela garota me encarando. Seus olhos não tinham uma cor definida. Era da cor da fúria, era da cor dos céus antes de tempestades, era da cor de desafio. Ela veio e sentou em minha mesa. Começou a contar suas histórias e aos poucos fui ficando fascinado.  Não é todo o dia que o caos cruza o seu caminho e você bem deve saber o quanto isso deixa aquela sensação de espanto. Quando tive que sair ela veio e me deu um beijo, me entregou um papel com seu nome, endereço e telefone. Disse que me esperava no dia seguinte às 8 horas. Mandou que eu escolhesse um lugar bem bacana e que a surpreendesse.

Fiquei parado ali na porta do café por um bom tempo enquanto acompanhava ela indo embora. Tinha um jeito de andar único, bem bizarro, coisa que só ajudava a montar o quadro surreal deste nosso primeiro encontro.

Não lembro o que rolou na reunião, só sei que vendi outro projeto e mais grana entrou em caixa. Era o ideal para terminar de pagar minhas casas. (uma para morar quase sempre e outra para escrever e descansar)

Ester brigou com um cara na mesa do lado. Levei-a ao meu restaurante favorito e ela conseguiu escutar uma frase machista do sujeito e na mesma hora o mundo caiu sobre os ombros do cara. Ela estava enfurecida. Quando ela ficava assim, percebi que o ar ficava sempre carregado, a temperatura do lugar mudava, o desconforto dominava.

Ela me criticou quando gastei uma fortuna em uma edição rara de um livro de contos do Bukowsky. Valia muito por ter seu autografo.  Mas ela volta e meia doava todas as suas roupas e mais de uma vez comprava outras tantas nos valores mais descabidos. Roupas que só seriam usadas uma vez apenas ou nunca usadas.

Quando nossos problemas começaram a ficar graves, eu comecei a beber mais ainda do que já fazia. Bebia sempre. Escrevia bastante também, foi minha época mais produtiva. Muitos afirmam que minhas obras mais icônicas foram produzidas entres estas turbulências.

Ester me deu um tiro. Chegou a casa com um revólver e dizia que era uma peça de museu, um presente para mim e que ele ficaria perfeito em minha estante. Ela não conferiu se estava carregada, se era realmente uma arma antiga. Só sei que quando ela me entregou eu logo coloquei na estante e lá ele ficou por meses. Durante uma briga, obviamente ela pegou a arma e apontou-a para mim. O tiro saiu seco. Senti uma dor tremenda ao lado do corpo, senti o sangue quente escorrer e uma queimação imensa. Queimava como os infernos.

Tive que fazer cirurgias, segundo o médico não morri por muito pouco.

Ester sempre me visitava e cada dia chegava de um jeito: algumas vezes chorava, em outras fazia festas em meu quarto e mais de uma vez jurou que não erraria da próxima vez.

Preciso fazer uma pausa e dizer que apesar de todos saberem o quanto esta relação estava ferrada, devemos também lembrar como não conseguimos nos livrar de tantas coisas nocivas que nos cercam. Alguns terapeutas podem explicar isso bem. Da minha parte, mesmo com a ajuda destes profissionais, não consegui me livrar de Ester.

Ela era inteligente. É afrodisíaca esta característica em uma mulher. Mas ela era louca. Eu me envolvi somente com mulheres loucas nesta vida, cada uma com seu grau de loucura, mas Ester ganhava de todas as outras. Até nisso eu era parecido com Bukowsky: a maluquice nas relações amorosas.

Um belo dia Ester sumiu. Semanas passaram sem nenhuma noticia. Sem um sinal de fumaça, ligação, carta, recado. NADA NADA NADA!

Se antes eu já tinha uma vida agitada e turbulenta, sem a presença de Ester tudo parecia mais duro, mais seco. O Mundo ficava sem muitas cores e com uma monotonia tremenda.

Mais escritos. Meu agente adorou este período, meus leitores ficaram empolgados em saberem dos vários projetos em andamento. Virei um autor “maldito”.

O Tempo foi passando. Aos poucos fui acostumando com a ausência de Ester. Aos poucos a casa perdeu o cheiro dos seus cigarros. Eu a proibi de fumar dentro de casa, mas ela o fazia justamente para mostrar que a casa podia ser minha, mas ali ou em qualquer lugar no mundo ela faria o que bem quisesse.

Depois de uma turnê de lançamento longa, retorno à casa e ela estava lá. Juntou minhas roupas no meio da sala e dormia neste “ninho”. Estava com os cabelos desgrenhados e parecia que não comia nada há muito tempo.

Eu cuidei dela. Dei-lhe um banho, fiz sopas para fortalecê-la. Vesti-me de toda paciência que eu tinha e cuidei dela que no momento parecia um farrapo humano. Ester voltou com mais cicatrizes, com cortes novos nos pulsos.

Depois de um mês Ester estava melhor. Já conversava um pouco. Eu procurava lhe trazer à rotina, lhe cerquei de nossas lembranças, mas mesmo assim ela não voltava.

Não sei em qual momento Ester recuperou um pouco de sua humanidade. Lembro que ela voltou a conversar, a fazer piadas. Ester estava diferente e era um bálsamo saber que ela estava mais tranquila e menos propensa a surtos. Pela primeira vez nós vivíamos uma vida próxima do normal.

Em novembro marquei de encontrar Ester em um dos meus restaurantes favoritos. Havia tirado aquele dia para passearmos pela cidade. Estava tudo correndo bem, ela estava com um brilho lindo no olhar, estava calma e eu achava que finalmente Ester havia encontrado seu equilíbrio, finalmente ela podia ser a minha mulher. Foi nesta noite que tive a melhor noticia da minha vida. Depois de uma noite intensa de amor, com orgasmos astronômicos, Ester me abraçou e soluçando me confessou:

– Estou Grávida!

Eu quis correr, quis ligar para todos os que eu conhecia, quis abraçar aquela mulher e nunca mais soltar, eu quis aquela mulher para sempre em minha vida. Ela estava realizando um dos meus maiores sonhos: ser pai.

A gestação correu muito bem até o sexto mês. Depois disso que tudo começou a ruir.

As sombras voltaram ao olhar de Ester. Ela voltou a ficar fechada, estranha, a ter seus surtos. Surtos que cada vez mais aumentavam sua intensidade, muitos diziam que era por contas dos hormônios da gravidez, os médicos evitavam receitar qualquer medicamento para não afetar o bebê e eu sentia cada vez mais minha esposa escapando de mim.

Ela queimou minhas roupas. Ela quebrou todas as coisas do quarto do bebê. Ela expulsava qualquer pessoa que eu contratei para ajudar em casa. Seu ciúme retornou em uma intensidade incontrolável. Precisei me afastar de várias pessoas do meu circulo de amizades por conta disso, Ester dependia cada dia mais de mim.

Foi uma sexta feira. Eu havia chegado de uma reunião com meu empresário e encontrei a cada destruída. Senti o cheiro de bebida exalando pela casa. Ouvi vidros sendo quebrados. Cheguei a cozinha e Ester estava lá. Quebrava cada um dos pratos que tínhamos os pratos que eu havia comprado a menos de um mês justamente porque ela havia quebrado os anteriores. Chamei seu nome e quando me viu, notei que ela estava transtornada. Tentei me aproximar, mas ela gritando, pegou uma faca e tentou me golpear. Por pouco consegui escapar. Ela gritava coisas impossíveis de entender. Eu chamava seu nome e nada dela me reconhecer. Quando notei uma possibilidade tentei tirar de sua mão a faca. Um milésimo de segundo de descuido e ela conseguiu cravar a faca em minha barriga. Senti uma dor terrível. Nada no mundo poderia descrever aquele momento. Senti minha mente tentando se afastar, mas me forcei a ficar consciente. Olhei para Ester e ela pareceu me reconhecer por um segundo.

Foi neste momento que vi seu vestido sujo de sangue. Achei que todo aquele sangue era meu, mas logo percebi que vinha dela. Estava ali na barra do vestido, descia por suas pernas. Naquele momento não pensei em mim ou em Ester. Eu só conseguia pensar na minha filha.

Ester urrava tal qual um animal ferido e com muito custo eu consegui levá-la até o carro. Tenho certeza que a machuquei em algum momento. Gostaria de ter pedido desculpas…

Sai disparado com o carro, avancei sinais, dirigi na velocidade máxima que o carro aguentou. O momento é nebuloso, mas ouvi Ester dando um grito e pulando sobre o volante. Na velocidade que estávamos aquilo teve consequências terríveis. O Carro capotou várias vezes. Fui jogado pelo vidro dianteiro. Senti todo o impacto do meu corpo no solo. Foram poucos segundos, mas que duraram uma eternidade. Cada pedaço de vidro eu senti. Cada machucado do atrito com o asfalto eu senti, toda pancada do meu corpo ao solo eu senti. E antes de morrer eu vi o carro. Ester estava lá desacordada. Sua cabeça estava sangrando e meu último pensamento foi:

“Eu matei minha esposa e minha filha”.

(Fim da Segunda Parte)

LEIA AQUI A TERCEIRA PARTE

Jardel “Bandido” Maximiliano

Pistoleiro da Madrugada

Canalha sentimental de coração vadio

Amargo (Primeira parte da História do Escritor)

(Dica: O conto foi escrito ao som de “Led Zeppelin” e “The Rolling Stones”)

Tornei-me um escritor para escapar da fome. Comecei a escrever porque eu não tinha grana e via sempre ao meu redor tantas pessoas tendo tudo o que sempre sonharam sem precisar mexer um único dedo para isso. Da minha parte eu lutava contra o mundo para ter alguns trocados para que não faltasse nada em minha casa. Quando digo nada, eu falo o essencial. Arroz, feijão e um pedaço de carne (ou um pouco de carne moída).

Comecei a escrever porque eu não podia contratar profissionais para ouvir meus problemas. Um belo dia peguei um pedaço de lápis e por não poder gritar, coloquei toda aquela angustia ali. Tenho que admitir que foi aliviador. Poder escrever tudo aquilo que pressionava meu peito me ajudou a respirar melhor. Fiquei mais leve. Mas foi por pouco tempo, afinal a vida não para se acaso você precisa de um tempo para se recuperar ou aproveitar mais um bom momento. Aqueles papeis foram se tornando cada vez mais necessários, o ato de ter um lápis em mãos logo despertava a vontade de extravasar a angustia. Lembro bem que encontrei meu estilo logo após uma decepção amorosa. Não vou relatar agora aquele momento tão intenso. Só sei que perdi uma garota que considerava a ideal para mim. Foi porque eu sempre fui o garoto tímido.  Aquele garoto que nunca conseguia olhar-se no espelho e dizer que era bonito. Lembro que cada olhada eu só via selvageria, só via revolta, só via a necessidade de ferrar com o mundo de diversas formas diferentes, mas que enquanto isso podia sorrir de forma convincente para qualquer um. Enfim, naquela ocasião o papel se molhou com as lágrimas de um garoto perdido, que se sentia como a pior pessoa do mundo e que achava que não ia sobreviver àquela dor. Eu gostaria de voltar no tempo para aquele momento, me olhar nos olhos e dizer duas coisas:

  1. Você vai sobreviver a isso. Vai superar mais rápido do que imagina
  2. Você vai sofrer de novo inúmeras outras vezes e cada uma vai doer mais que a anterior.

Em todas as outras vezes eu acabei escrevendo também. Aquela era minha terapia, era meu desabafo, era a minha forma silenciosa de protestar contra o mundo e dizer que eu não estava satisfeito com a vida.

…Como todos devem saber eu me ferrei bastante.

Certa vez alguém acabou lendo um destes escritos. Acho que foi uma ex ou um amor passageiro (ela também mereceu um texto). A pessoa gastou um bom tempo com o papel na mão. Leu e releu várias vezes. Quando ela terminou estava com os olhos mareados e disse:

– Cara, você leva jeito para ser escritor. Só acho que você não precisava ser tão sádico com seus personagens.

Soltei uma risada bem alta. O Momento merecia. Alguém havia finalmente descoberto que minha vida só podia ser fruto de um ser superior com um sadismo forte, para completar esta impressão a pessoa ainda achou que era um personagem criado por mim.

-Tem mais aí?

E logo pegou mais dos meus escritos e foi devorando sentada no tapete do meu quarto.

Tenho que dizer que foi apaixonante vê-la de camiseta e calcinha sentada no tapete lendo. Foi neste exato momento que descobri o quão atraente é uma mulher quando esta concentrada lendo alguma coisa, preferencialmente literatura.

Quando ela foi embora aquele dia ainda pegou alguns cadernos e disse que me devolvia logo depois que os lesse. Só vi aquele material semanas depois. Encadernados, digitados, impressos de forma que parecia um livro tosco, mal cuidado e com manchas de tinta.

-Tai teu primeiro livro.

Sei que no momento fiquei meio bravo com ela, mas logo percebi que era a primeira vez que eu via aqueles escritos como uma forma diferente da que eu havia me acostumado: As lamúrias de um bebê chorão. Esta foi até o título que ele recebeu posteriormente.

Sei que andei bastante com aquele material debaixo do braço. Fiz fotocópias, mandei para editoras. Foram meses fodidos em que a esperança ia em cada pacote e voltavam transformados em humilhação e desespero em cada carta que chegava em resposta. Sempre recusando meu material. O Mais engraçado é que qualquer pessoa que eu conhecia e que acabava lendo aquilo elogiava bastante. Por mais que meu pessimismo quisesse me convencer de que eles estavam querendo apenas agradar, transparecia a sinceridade neles.

Foram tempos negros onde eu trabalhava como um burro durante o dia. Enquanto realizava trabalhos braçais e repetitivos minha mente viajava para uma mesinha cheia de papéis e aos poucos eu ia escrevendo mais e mais.

Como devem bem saber meus textos são sujos, ferem todas as regras gramaticais e surtam qualquer pessoa que não tenha vivido um pouco. Surtam qualquer pessoa sem cicatrizes, surtam qualquer sujeito mimado que não sentiu o peso da vida sobre os ombros. Meus textos falam exatamente sobre como vejo a vida, tento jogar no papel aquele momento em que você pode dizer que está vivo. É um relato de sobrevivência.

No que escrevo eu tento me salvar de qualquer desespero amoroso, tento ter por mais tempo aquela garota que acabou de me chutar pra escanteio e agora desfila com um sujeito que eu odeio. Escrevo tentando espantar aquela garota que quando foi embora quebrou os vidros do meu carro e riscou toda a lataria. E nem preciso mencionar que escrevo para tentar não ter medo que a incendiaria volte para terminar o serviço que fez em minhas coisas.

Um belo dia, logo após uma pessoa ler um dos meus textos, me disse:

-Cara, você escreve igual ao Bukowsky.

Fui logo indagando quem era o sujeito e diante da explicação da pessoa, acabei procurando um dos livros dele para ler. Foi suprema a sensação de encontrar um sujeito que via a vida do jeito que eu via. Ter alguém para compartilhar aquele ponto de vista. Aquele olhar. Li tudo que pude sobre ele e cada livro me fascinava mais.

Aquela descoberta ia mudar minha vida.  Justamente com uma garota: Ester. Bukowsky ajudou a tornar mais suportável minha vida. Ester era como um dia de sol em minha vida, era uma coisa que conseguia dar significado a tudo ao meu redor, mas ela acabou sendo um furacão que destruiu tudo em seu caminho e me deixou em cacos…

FIM DA PRIMEIRA PARTE

LEIA AQUI A SEGUNDA PARTE

Jardel “Bandido” Maximiliano

Pistoleiro da Madrugada

Canalha sentimental de coração vadio