A TERRÍVEL SINA DO AMIGO

Como todos sabem, – se não sabem, ficarão sabendo agora – não há nada mais broxante que ser chamado de amigo.
Não estou falando que é ruim ser chamado ou ser considerado assim, mas todo homem teme a tão famosa friendzone.
Imaginem a cena:
O cara acorda determinado, toma seu banho pensando no seu dia. Trabalha o dia inteiro só pensando em como será a noite.
Se prepara. Vai pra casa voando, toma dois banhos pra garantir. Veste uma roupa bacana, vai pra frente do espelho e ensaia o que irá dizer. – Está tudo errado! – Recomeça o discurso. Toma outro banho e ensaia mais um pouco embaixo do chuveiro.
Sai do banho, olha as horas – Faltam 45 minutos – Troca de roupa mais duas vezes, acerta os últimos detalhes do discurso e sai de casa.
No caminho passa numa floricultura e numa loja de chocolates.
Está tudo pronto!
Munido de todas as armas ele para na frente da casa dela.
Confiante!
Corajoso!
Destemido!
Ela abre a porta, ele entrega os presentes pra ela e antes de começar o tão ensaiado discurso ouve a seguinte frase;
– Que fofo MIGO! Você é meu BEST.
PRONTO! A surpresa de aniversário já era. O declaração de amor já era também. A auto-estima, a coragem e a confiança já estão do outro lado da rua indo embora de cabeça baixa.
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Pois é!
O camarada em questão broxou.
Estava todo empolgado, animado e confiante e em menos de 30 segundos tudo isso acabou.
Pode ser que a moça em questão não tenha dito isso como uma forma de afastar as segundas intenções do rapaz, porém ela conseguiu isso com maestria.
Seria muito mais fácil se as mulheres conseguissem ler esses comportamentos que nós apresentamos independente da idade.
Se não querem nada conosco, nos falem.
E se por ventura existir pelo menos uma remota possibilidade de que vocês tenham algo com esse cara, pelo amor de D’us não o chame de amigo! NUNCA!
Pois chamar um cara de migo, amigo, best ou qualquer outra coisa assim é o maior anti-viagra que existe.
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dann  Dann Toledo

Semi-psicólogo metido a escritor e pseudo poeta.
Colaborador do Manual Prático do Canalha Sentimental e Criador do site Psicoquê?

Quem são as invejosas?

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Sempre achei o formato das redes sociais um tanto psicótico. Pessoas falando “sozinhas”, sendo seguidas por outras, conversas que não levam a lugar algum, conectadas à rede, mas desconectadas da realidade. Tudo muito estranho… ora engraçado, ora deprimente. Um universo à parte.

É óbvio que a arquitetura destes programas acabam por definir o conteúdo dos mesmos. Uma enxurrada de spams, muitas mensagens de auto promoção, temas da moda e, claro, as indiretas. Sobre elas, as indiretas, que quero fazer uma pequena reflexão com vocês leitores e leitoras.

Antes de tudo, gostaria de pedir que atire a primeira pedra aquele que nunca enviou uma indireta por uma rede social. Seja ela do bem, do mal, neutra… que atingiu o alvo ou não. Difícil encontrar alguém, não é? Talvez seja por isso que as redes sociais tenham tanta potência, investem em pontos que são, na verdade, nossos. Claro que fortalecem alguns deles mais que outros, mas no fim das contas sempre estiveram por ali… não é nada inédito, pelo menos no conteúdo, enquanto a forma fica cada vez mais compulsiva.

“Desejo a todas inimigas vida longa / Pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória.” Poderia ser… não sei quem, mas sim, é ela, Valeska Popozuda. O clipe dessa música[?] é uma super produção, o Senhor do Anéis do funk. E me diga, tudo aquilo para que? Para mandar uma indireta!! Eu não estou exagerando quando digo que esse tema é sério. Por todos os lados, a indústria cultural já percebeu que isso dá ibope, falar mal das invejosas e dos manés. A única coisa que não entendi até agora é: Quem são essas pessoas tão más?

“Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” Esta sempre foi uma pergunta sem resposta para mim. Em uma lógica monoteísta isso é um pouco complicado. Sendo o mesmo Deus, o que me garante que Ele está completamente ao meu lado e totalmente contra meus inimigos? Quem disse que você é o filho preferido e está cumprindo a vontade divina? Bateu saudade de quando árvores de fogo falavam e anjos apareciam com trombetas, não é? Eu te entendo… também queria respostas.

O que eu estou levantando aqui como questionamentos é, simplesmente, qual certeza de que estamos totalmente corretos e “nossos inimigos” totalmente errados? Nenhuma! E é por isso mesmo que usamos tanto a indireta como forma de comunicação[?]. Se a certeza existisse mesmo, seria dito na cara. De forma quase oficial, direcionada, sem fogo amigo ou coisa parecida. Uma vez ou outra, vá lá… mas o que temos é uma epidemia. Tanto se espalhou que até na política [espaço da discussão pública,  aberta, clara] tem prevalecido o “dizem que falam que não sei o que”. Quando tudo fica “à boca miúda”, se tem nada de concreto, a não ser um tanto de especulações.

A questão final é: se não é falado diretamente e o objeto de nosso ódio não tem qualquer chance de se defender, o que garante que não é paranoia de quem denuncia contra si mesmo? Explico melhor, as vezes, a raiva e a crítica que direcionamos ao outro é um problema nosso e não foi nenhum mal olhado que fez nosso chefe brigar conosco, mas foi o nosso péssimo desempenho no trabalho [muitas vezes por ficar procrastinando no facebook] que não permitiu aquela tão esperada promoção, aquele tão sonhado aumento de salário. Quer dizer que não existem inimigos no mundo? Claro que existem, não estou dizendo para baixar completamente a guarda, o que proponho é uma linha a mais em nossas orações, uma linha que proponha a reflexão sobre os nossos próprios pecados, contra nós ou contra os outros.

eumanual

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Quando o sexo de um é o chifre de outro

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Guimarães Rosa já havia dito que “viver é muito perigoso”. Independente do lado que assumirmos no universo, seja ele sobre a proteção de Deus, Alá, Buda ou o grande Espaguete Voador, depois de um tempo começamos a perceber que o nosso senso de justiça nem sempre dá certo e que, muitas e muitas vezes, não basta ser legal para ter o beijo da menina no final do filme. O cinema estadunidense tentou e tenta, todos os dias, nos convencer que no final tudo termina bem e que, se por algum motivo, seja ele qual for, as coisas não aconteceram do jeito que esperávamos, a culpa é inteiramente nossa. Reparem como os personagens traídos e maltratados do cinema são responsáveis por suas próprias derrotas… são eles: relapsos, ou cruéis, insonsos e malvados, mas, se por algum acaso, isso acontece com alguma boa personagem, no futuro se dará a correção e esse sujeito receberá um rápido retorno do universo, com juros e correções. Naquele mundo, o Karma funciona como em nenhum outro lugar.

Por aqui a coisas são um pouco mais complicadas. A vitória sobre aqueles que nos oprimiram demora um tanto bom para chegar, em alguns casos, só na próxima vida, depois de passar pelo crivo e julgamento de São Pedro. Quantos conhecemos, pessoas boas e justas, que não tiveram lá o seu quinhão… a parte que cabia a eles nesse latifúndio? E a injustiça nem é responsabilidade de pessoas tão más quanto os vilões dos filmes [vocês já repararam que até em comédias românticas têm vilões?], por aqui o maniqueísmo não vinga tão forte também.

Acontece porque acontece… simples assim, “shit happens”, já dizem os nossos amigos do norte. Acontece, simplesmente, porque o meu senso de felicidade é interferido pelo senso de felicidade de outra pessoa, porque se dois jovens se apaixonam por uma garota, ela acabará escolhendo um deles [a não ser nos casos de Poliamor ou na Teoria da Branca de Neve].

Apesar do título [eu sei, ele serviu para chamar a sua atenção], meu ponto não é exclusivamente sobre traição, mas sobre todo acaso que rege o universo e a impossibilidade de sabermos se a sorte estará ou não ao nosso lado. No fim das contas, não dá para saber e tudo fica sob a indecisão de uma aposta.

aposta

Aí o querido e a querida leitor(a) se perguntam: e por qual motivos [diabos!!] eu serei uma pessoa legal? Obviamente minha resposta não será algo com uma premiação no final ou por uma compensação direta do tipo… “deu-levou” ou “tudo retorna em dobro”. Penso de forma mais matemática, seguindo um pouco do pensamento estatístico [só um pouquinho, já que eu não sou muito bom nisso].

O mundo já tem seus perigos, suas complicações.  A indecisão do futuro já tem sua enorme parcela de culpa na nossa ansiedade, deixando-nos sempre a mercê de nossas superstições e receios. Nunca sabemos se na próxima esquina encontraremos o amor de nossas vidas ou se uma bigorna cairá sobre as nossas cabeças [queridos pré-adolescentes (ou quando este texto for lido no futuro, pelos futuros adultos) nos tempos de desenhos politicamente incorretos, bigornas caiam na cabeça dos personagens, por isso da referência]. Agora, imagine toda essa situação e alguns vários, milhares, milhões de espíritos de porco tentando atrapalhar ainda mais a nossa frágil vida em comunidade. Difícil, né?

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eumanual

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Ps – Pois bem, mas no meio de tantas incertezas, queria dizer que, ainda assim, eu sou um otimista e já que iniciei com Guimarães Rosa e uma frase de efeito… nada mais justo que terminar com um pouquinho de alento e uma frase de outro gênio, Pablo Neruda, dizendo assim: “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida”. Mesmo sabendo que esse amor é, também, incerto.

A prostituta e o escritor

prostituição

Então esse sujeito, o personagem principal dessa pequena história, tinha um caso com uma prostituta. Apaixonado por ela e também sustentado pelo dinheiro que ela conseguia na noite, não trabalhava e vivia escrevendo seus contos, até então, nenhum havia sido aceito em qualquer revista ou editora que tentara. Certo dia, deitado na cama enquanto a jovem se arrumava para sair, ficou ali pensando na situação degradante em que ele vivia. Pensou seriamente no papel que ele, homem, estava fazendo sendo sustentado por ela… pior, sentiu-se  enciumado e decidiu dar um basta naquilo tudo, de uma vez por todas. Enquanto ela arrumava para o trabalho, ele levantou da cama e disse em tom grave:

_ Não gosto que você saia para as ruas… você é minha mulher e deve largar essa vida.

Muito calmamente ela larga o lápis com o qual modelava os olhos, vira-se para ele e responde:

_ Mas por quê?

_ Por quê? Pense bem, você é uma prostituta, como eu posso me sentir confiante, como eu posso me sentir homem?

_ Acho que você tem todos os motivos do mundo pra se sentir confiante sim!

_ Mas…

_ Escuta querido, eu passo as noites vendo os mais diferentes tipos de caralhos, de todos os formatos e tamanhos… faço sexo de todas as maneiras imagináveis. Se eu volto pra você, é porque eu te amo!

E o resto foi silêncio…

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Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Você precisa disso tudo mesmo?

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Na pequena grande lista de promessas para o início de ano, a minha, desse ano de 2013, teve uma de aproveitar um pouco mais a vida e isso significava, dentre outras coisas, que eu viajaria mais. Agora, quase no fim do ano, percebo que estou cumprindo minimamente a proposta. Mesmo estando limitado no número de lugares por onde passei ou o número de camas que não a minha em que dormi, a quantidade de viagens aumentou consideravelmente. Acredito que é caminho sem volta e já me inscrevi naquele grupo de pessoas que diz: Viajar é preciso!

A primeira coisa que fiz no ano, foi comprar uma mochila, pois seria ela que eu carregaria para todos os lados. Depois acompanharam um celular que me permitiu carregar minhas músicas e me ajuda passar o tempo nos ônibus [quando sozinho] e, agora mais para o fim do ano, uma máquina fotográfica de qualidade [outro desejo antigo].

Tá parecendo que o texto de hoje é sobre viajar, ou sobre promessas de inicio de ano e a capacidade que temos cumpri-las, não é? Mas não é isso não… o meu foco é na mochila [e malas, não tenhamos preconceito] e as coisas que carregamos dentro delas. O número de equipamentos básicos que me acompanham por aí parece ter crescido, mas na verdade minha mochila fica cada vez mais leve.

Foi o aprender a viajar que me ajudou a carregar o mínimo de coisas, só o necessário. Minha primeira arrumação era imensa, acreditava que tudo era importante… livros, muitas roupas, um tanto de produtos de higiene, alguns calçados, uma mini farmácia e mais um tanto de coisas inúteis. No fim da primeira viagem percebi como tinha carregado coisas demais e que, na verdade, a maior parte delas só me atrapalhava com o peso.

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Só que, como tudo na vida, o buraco sempre fica mais embaixo, perceber que não utilizamos tudo aquilo que carregamos conosco, não significa que estaremos tão mais leves nas próximas vezes. Era extremamente difícil decidir o que ficaria para trás. E se esfriasse muito? [mesmo sendo verão] ou se chovesse? [mesmo sem nenhuma previsão de chuva e sabendo que para comprar outro guarda-chuva gastaria no máximo 10 reais] e caso um apocalipse zumbi acontecesse? O problema não era a viagem em si. O problema eram os medos, os meus medos e só havia um jeito de encará-los.

Perceber o que é realmente necessário não é um processo ideal, longe da correria das coisas. Não me sentei no alto de uma pedra e meditei até o momento em que o Buda, ou Cristo, ou Maomé desceu das nuvens e iluminou a minha mente. Só aprendi o que era necessário e o que era sobrepeso na minha bagagem de uma forma bem menos especial do que esperava: tentativa e erro. Um duro e longo processo que, às vezes, carregava o que não precisava e, às vezes, faltava algo essencial.

No fim das contas, a bagagem só diminuiu quando eu consegui perceber que o mais importante era o processo. Viajar já era deixar muitos receios de lado [Será que o dinheiro cobriria todas as contas? Perder um dia de trabalho no consultório, será que eu posso?  Não me sentirei deslocado na cidade x? Terei coragem de dormir em um albergue?…]. Só descobriria a resposta para essas perguntas, tentando. É o que tenho feito, tentado!

E você, o que anda carregando sem necessidade?

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[As imagens que você vê nessa postagem foram tiradas de uma série sobre as bagagens que os internos de hospitais psiquiátricos levavam nos dias de suas internações. As imagens são bem interessantes e vc pode acompanhar mais algumas aqui, mas, por mais interessantes que sejam, eu espero que ninguém mais tenha que ser internado num lugar desses.]

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Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Sexo oral: poder, prazer e culpa

[Esse texto foi originalmente postado no blog sobre meu trabalho, mas cabe bem às temáticas canalhas sentimentais. Espero que possam aproveitá-lo.]

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Sábado à tarde, caminhando à toa pela rua e escuto uma jovem dizendo à outra: ‘mas você beija a sua mãe com essa boca?’ E a garota que emitiu a sentença, não se expressava em tom jocoso. O rosto fechado e sério, como se fosse uma decisão jurídica, sem possibilidade de recorrer a qualquer misericórdia por parte da juíza.

Eu e minha mente vazia, oficina do diabo, começamos a conjecturar de onde veio aquela frase. Não havia menção de que um palavrão ou coisa parecida tivesse sido dito pela moça repreendida pela amiga. Pensei, como segunda hipótese, no famigerado sexo oral. Mas por que ele seria motivo de tanta crítica? Frente a isso, não tive como não me lembrar de Freud e as teorias da repressão sexual.

Não que eu acredite que toda a base do psiquismo humano seja a sexualidade, mas convenhamos, uma boa parte está ali iniciada. Se alguns eventos estão diretamente ligados à história da humanidade, eles são a morte, a sexualidade e o poder e para pensar, mesmo que de forma rudimentar, sobre o papel do sexo oral nas relações humanas, eu tenho que tratar um pouco desses 3 assuntos.

O orgasmo feminino é privilégio dos seres humanos e isso muda tudo. Claro que as fêmeas de outras espécies sentem prazer no intercurso sexual, mas nenhuma fêmea do mundo animal experimenta o mesmo delicioso prazer que as mulheres, pois o orgasmo não está apenas associado ao prazer físico, mas também é estimulado por fatores emocionais. A possibilidade de sentir prazer e, por isso, não conceituar o sexo com fins unicamente reprodutivos coloca a mulher num papel diferenciado das fêmeas de outros animais. A postura vertical obrigou a humanidade a reconsiderar as formas de acasalamento [anteriormente o coito era feito com a fêmea oferecendo os quadris para o macho, em um ato breve e com finalidade muito específica, a continuação da espécie]. O encontro face a face entre os parceiros estimula um contato diferenciado e influencia diretamente nas relações humanas. O sexo, como é feito por nós, humanos, tem caráter subversivo e desafia a ordem ‘natural’ das coisas.

Falar sobre a história da sexualidade humana, sem tocar diretamente em suas implicações político-psicológicas é disfarçar o tema. Na história da humanidade, e nem preciso discorrer muito sobre o assunto, é notório, a mulher sempre foi colocada em situação desfavorável. Tratada por inúmeras culturas e épocas como escrava coletiva ou individual. Nos melhores casos, era protegida, mas a visão ainda era de uma menor idade intelectual e, por isso, deveria ser tutelada pelo pai, marido ou outros possíveis cuidadores. A necessidade de reprimir a mulher e seu desejo está diretamente ligada ao desejo masculino de reprimir a natureza e suas projeções, no caso, o feminino. O homem que controla e modifica a própria natureza, que não pode estar sujeito à sorte de todas as coisas naturais, senhor de seu próprio destino e sexualidade, aquele que enfrenta e passa a dominar os deuses.

Se invertermos a lógica e assumirmos que o humano está sujeito aos desígnios divinos, pouca coisa muda, pelo menos no campo prático. Voltamos ao pensamento de que o sexo entre pessoas de mesmo poder é subversivo e perigoso para os desejos dos deuses. Por que deveríamos merecer uma atividade tão prazerosa, já que nós, humanos, só podemos viver em função da divindade? Sentir e acreditar em uma felicidade que esteja desconectada da religião não pode dar em boa coisa. O que fazer então? Resposta: mais uma vez, reprimir a natureza em sua projeção, a mulher… não devemos permitir os desejos da carne. Prestaremos conta de nossos atos agora ou depois da morte e isso assusta. O medo é um dos melhores amigos do ódio e da repressão.

Haja o que houver destina-se ao homem o direito de salvaguardar os interesses humanos, sejam eles em confluência com os interesses divinos ou não. Obviamente que tanto poder nas mãos de único gênero [que ainda tenho minhas dúvidas se não é o menos esperto de todos] não poderia dar certo. O homem heterossexual, ativo, sem quaisquer trejeitos femininos ou indícios de falha em sua masculinidade é talvez a pior caricatura que conseguimos criar de nós mesmos. Infelizmente é o que prevalece até hoje.

Sou acusado de dar muitas voltas até chegar ao tema que realmente importa, mas acredite, eu ainda estou falando sobre o sexo oral.

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Pois bem, o sexo oral é, para muitas mulheres, uma das formas mais fáceis de chegar ao orgasmo. A leitora que já se permitiu a prática do sexo oral, ou o leitor que não foi um idiota e não teve receios de proporcionar prazer à mulher com quem se relacionava, sabe muito bem disso. Claro que não existe uma receita de bolos, mas o contato com o clitóris [lembra-se da lenda do ponto G?] fica facilitado. Ainda assim, uma pesquisa sobre sexualidade feminina realizada em 1975, por Shere Hite, constatou que uma grande parte das mulheres tinha receio em receber o sexo oral e, a maior preocupação, estava relacionada ao cheiro e a higiene dos órgãos sexuais.

É óbvio que de 1975 pra cá um tanto de coisas mudaram, mas ainda é uma tendência a se pesquisar. O sexo oral se transforma [junto com a prática do sexo anal, mas esse fica pra outro artigo] uma das práticas sexuais com maior preconceito. Talvez ele não possa ser culpado de engordar, mas é constantemente acusado de imoral, ilegal ou anti-higiênico. Para muita gente, a proximidade dos órgãos sexuais com os órgãos de excreção condenaria a essas partes do corpo uma suposta sujeira. Balela… com a higienização correta, tais partes do corpo são tão limpas e cheirosas como o resto do corpo, além de que, em condições saudáveis, a vagina e o pênis contêm menos germes do que a boca. Quanto ao fato de ser uma atividade que não possui fim reprodutivo, gostaria que o/a leitor[a] fizesse uma listagem mental de todas as outras atividades sexuais que não têm como finalidade a procriação [começando pelo beijo].

A mulher pode se libertar desse receio e permitir as sensações causadas pela boca do parceiro, mas ainda assim teria que encarar o machismo. O homem, suposto detentor da atividade sexual, pode sentir-se intimidado diante da vagina e colocado em desvantagem ao se preocupar, durante um tempo, exclusivamente com o prazer feminino. Posso pensar as vantagens em se praticar o sexo oral tanto pela via relacional, política, social ou mesmo pela egoísta, em qualquer uma delas, elevar o desejo feminino a outros patamares de prazer é vantagem para o homem.

Enfim, sexo bem feito é quando a obtenção de prazer por ambas as partes é levada em conta. Talvez a revelação que um amigo me fez uma vez, case bem com esse ensaio. Segundo ele, quando criança, ao ouvir falar sobre sexo oral, imaginou que se tratava de falar sobre sexo. Se levarmos em conta essa concepção infantil sobre o sexo oral, ele se faz ainda mais necessário entre os casais.

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Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Be vodca my friend.

Madrugada… táxi… indo de um bar para uma boate. Lugar mais improvável para pensamentos filosóficos, ou não. Nunca subestime o poder de abstração de alguém levemente embriagado.

Assim não, Obama!

Assim não, Obama!

Um copo de vodca na mão, plástico, claro. Minha amiga me alerta para o jeito que seguro o copo. Eu deixaria a bebida cair. O taxista aproveitava o pouco movimento na rua e não perdia tempo, a cada curva, um solavanco nos passageiros.

_ Segura assim! _ e indicava para segurar pela borda do copo, usando apenas dois dedos _ Se você segurar o copo muito firme, o líquido derrama… é importante deixar mais solto, seguir os movimentos do carro. A gravidade se encarrega de deixar o líquido no fundo.

Maldita formação em Humanas. Era para pensar na vodca, não na existência, mas já era tarde. Fiquei olhando para o copo com aquela cara de bobo, olhar perdido de bêbado e pensando: não é que ela está certa? Sobre o copo, é óbvio, mas tinha algo mais naquela história. Pensei nos meus relacionamentos e pronto, mais um milhão de pensamentos.

Quantas vezes impedimos que o movimento simplesmente flua. Nosso desejo de controle, de forçar situações. Manipulação é um passo adiante para a tragédia. Quem sabe a história teria sido diferente se o pai do Édipo tivesse deixado o futuro para o futuro…

Quase... [será que algum desenhista me ajuda num infográfico?]

Quaaaaase assim… [será que algum desenhista me ajuda num infográfico?]

E a postagem de hoje é pequena assim mesmo. Uma epifania não se explica, necessariamente, com palavras.

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Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Mulheres que se vestem de oncinha

sandália salto oncinhaSão tantas as amigas e clientes, universitárias ou trabalhadoras, que reclamam a falta de tempo para cuidarem de si. No meio das tarefas diárias falta tempo para uma maquiagem, unhas coloridas, salto alto, vestidos de festa… e aquilo vai deixando a pessoa um pouco menos feliz com a própria condição. Falta o dia de ser só sua, de suprir um dos mais importantes pecados: a vaidade.

É óbvio que esses padrões não se encaixam para todas as mulheres. Algumas passam longe do tal do rímel ou do batom. Preferem o tênis em detrimento do salto alto e nunca, mas nunca, usariam uma estampa de oncinha. Pois bem, direito delas, mas nesse texto eu quero falar do arquétipo da Perua e o direito a ele.

Os prazos cada vez mais apertados. As exigências de trabalho cada vez mais sufocantes e a obrigação de produzir muito mais em um intervalo de tempo sempre menor. É nesse quadro que a vaidade passa a ser aspecto menor na vida de uma pessoa.  Dizem assim: “Isso daí é perda de tempo, o importante é ganhar dinheiro”. Aí eu penso cá com meus botões; mas ganhar dinheiro para que? Não deveria ser, o dinheiro, um meio para se alcançar as coisas que nos fazem um pouco mais felizes?

Young girl applying lipstick

Outra suposição é de que bonita é a mulher com conhecimentos. Existe hoje quase uma perseguição à mulher que entra em crise ao ter que escolher entre comprar mais um livro ou mais um sapato.  Eu também acho que a inteligência é um afrodisíaco [note o artigo indefinido na frase], mas não sou eu, ou você, ou qualquer outra pessoa no mundo, quem tem o direito de definir como a pessoa irá se sentir bem com ela mesma.

Pior é a crença internalizada. Tanto batem na tecla que passam a acreditar mesmo que existe uma ordem de prioridades rigidamente construída. Não existe! No mais, se temos que trabalhar por horas a fio, muito melhor trabalhar se sentindo bem consigo, não? Então o tempo e o dinheiro gasto com uma blusa nova ou com uma tarde no cabeleireiro, nem sempre é dinheiro e tempo perdido. É uma questão de equilíbrio e de saber qual espaço é qual…

Queria dizer, por fim, que meu mundo ideal não é um mundo em que mulheres trabalhem como homens [honestamente, eu não quero trabalhar tanto!]. Meu mundo ideal é um espaço em que homens e mulheres recebam salários justos, possuam tempo livre… é muito melhor que essa competição em que, qualquer coisa que não seja destinada ao Capital, seja perda de tempo. Estamos mirando nos inimigos errados e combatendo possíveis aliados.

Pelo direito ao ócio, pelo direito à vaidade, pelo direito de ser Perua!

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Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Eu não sou feminista [mas não me matem antes de ler o resto]

Existe uma velha piada judaica sobre um grupo de judeus rezando em uma sinagoga e assumindo perante o Deus a sua total insignificância. O Rabino se levanta e diz em voz alta: “Deus, eu sou inútil, sei que sou nada!” Logo após o Rabino, um rico comerciante judeu se levanta e também diz: “Senhor, também sou um inútil, reconheço o quanto sou pequeno, mínimo!” Terminado o acontecimento, um judeu pobre também se levanta e declara: “Ó Deus, eu sou nada…” Nesse instante o comerciante cutuca o rabino e sussurra no ouvido dele: “Quem esse daí pensa que é?”.

Se alguém vier me perguntar se eu defendo o direito ao aborto, responderei que sim. Se alguém quiser saber se acredito que a mulher é dona do próprio corpo e que ela, apenas ela, tem poder sobre ele… podem avisar que concordo. Se eu acho que a mulher não é responsável pelo estupro, que acredito ser um absurdo o fato de que mulheres realizem jornadas duplas ou triplas de trabalho, uma vez que seus companheiros não ajudam nas tarefas da casa, ou que acho uma lástima mulheres receberem salários mais baixos que homens nos mesmos cargos exercidos, tudo isso é verdade e assumo. Mas não posso compactuar com a intransigência das modas na internet e achar que isso é movimento político. Por isso aviso que também não sou de esquerda e nem defendo os direitos dos animais ou justiça racial. No Facebook não!

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Sinto falta dos memorandos enormes dos grupos trotskistas explicando porque eles são melhores que os outros partidos de esquerda. Problemáticos que fossem, alí tinha conteúdo e, acreditem, sempre existia alguém com paciência para ler o artigo inteiro e responder ponto por ponto. Parece que hoje tudo se converteu em uma guerra de memes nas redes sociais e “Aí de você se discordar de mim!”.

Fica difícil se definir como alguma coisa quando todo mundo se transforma em dono da verdade porque compartilhou uma imagem com uma única frase incapaz de resolver todas as contradições de um tema complexo pra cacete. Aí é misógino para cá… direitista para lá… preconceituoso… coxinha… classe média… gordofóbico… gayzista… comunista… petralha… fascista… tucano… e a lista não acabaria hoje. E eu que, inocentemente, chamava meus amigos mais aguerridos de pelegos e isso não era motivo para ser bloqueado… Bons tempos!

Meu espírito analógico não me permite certas virtualidades. Para eu acreditar que o peso está certo, eu quero ver o equivalente dele na setinha da balança. Não adianta as nomeações, ou melhor, auto nomeações. Como você se identifica é problema seu, quero saber das suas posturas no dia a dia, até mesmo porque um pseudo-feminista [pode colocar qualquer posicionamento político progressista depois do pseudo] pode ser bem mais charmoso que um de verdade, já que toda concordância dele [do pseudo] é milimetricamente planejada para levar a menina para cama, ou para arrecadar votos, ou público, likes etc. Acreditem, picaretas não andam com tatuagens de identificação ou qualquer coisa parecida. E o discurso mais fácil, assim como os caminhos mais curtos, quase sempre carregam ciladas. Desconfie de quem concorda demais com você.

Outra coisa que me assusta nas micro-políticas de internet é o tanto que, muitas delas, são micros mesmo… definem pela parte a causa para o todo. Daí saem aqueles frankensteins: negros misóginos, mulheres islamofóbicas, esquerdistas preconceituosos, defensores dos animais extremamente elitistas… Tudo se define como nicho de mercado e pouca diferença tem com uma propaganda de calçados ou refrigerante. Tanto faz, se o meu lado estiver garantido. Eu ainda tenho esperança que as coisas sejam feitas diferente na esquerda, não compactuarei com nada disso.

Há também a mania de tentar censurar o outro… mas isso é uma discussão para um outro texto, inteiro, completinho, só para esse tema.

Ainda acredito na minha capacidade em estar errado e no meu direito em acreditar, assim como o Humberto Gessinger, que “a dúvida é o preço da pureza” [sim, eu também acredito no meu direito de ser cafona]. Não existem unanimidades e repito a lógica do Nelson Rodrigues: se ela existir, ela será burra. Se perguntarem o que sou, digam que sou um canalha sentimental, uma contradição de termos… prefiro ficar por aqui. As pessoas que já acharam suas respostas estão nos seus caminhos, mas eu ainda estou na fase das perguntas e, mais importante ainda, na fase de debater com todo mundo pelo tempo que for necessário e com quantas palavras forem precisas.

Ps.: Acredito que tem muita coisa boa sendo produzida também… em breve venho linkar aqui uma lista mais otimista. Hoje é dia de desabafo.

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Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Sobre os homens normais

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Ser mulher não é fácil e boa parte delas já sabem disso desde que nasceram. Por outro lado, ser homem também não é lá essas coisas. A tal da cultura patriarcal é tão cruel com mulheres, quanto com homens e o Capital [sim, ele! assim como o pop] não perdoa ninguém. O darwinismo social, onde só os mais adaptados [que nesse caso podem ser os mais fortes mesmo] sobrevivem, parece ser a única dinâmica possível. E tem dias que bate aquela desesperança com a barriguinha nossa de cada dia. Aí, não é que aparece na internet uma esperança com sujeitos esquisitinhos como eu e você [ou melhor, normais] em poses sensuais de propagandas de cueca? O ensaio foi feito pelo tabloide The Sun e o resultado é muito bom. Me lembrou a clássica comédia inglesa Tudo ou Nada, em que um grupo de operários desempregados [olha o capitalismo cruel aí de novo] decide fazer um show de strip para ganhar dinheiro e o melhor, o evento vira um sucesso. Nós também merecemos uma campanha pela real beleza!

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Bobo do homem que não tem amigas. Mesmo que tenhamos vontade de transar com todas elas, ter amigas, daquelas que contam segredos inconfessáveis, é muito bom. E dentre os inúmeros motivos de ser bom, um deles é saber que tem muita mulher que não troca uma barriguinha por nenhum peitoral trabalhado em academia.

ps.: E para você, homem, que ficou incomodado com uma postagem com homens de cueca… é melhor rever isso daí.

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Marcelo Marchiori: Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais. Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”