Meninos tímidos

bridget-jones

– Bem, então, como você sabe, meu nome é Daniel… risos… e… e eu voltei pro Rio há uns meses, tava em Londres, estudando, e… Esse barzinho é novo? Tanta coisa nova em Botafogo….

– É…o barzinho é novo… O chopp daqui é muito bom.. e…

– … e… então, que bom que a gente marcou… pra se conhecer melhor… conversar…

O nome disso? Menino nerd de sobrenome judeu e timidez britânica mandando um papinho de adolescente carioca. Poisé. Esses tipos ainda aparecem na vida de Alice. Em um momento de fraqueza (por olhos azuis quase transparentes), admito.

Hugh-grant-mugshot

Atores como Hugh Grant e Colin Firth (ambos britânicos e cinquentões, opa!) construiram uma base de fãs cuja fraqueza cultural e visual alimentava-se de seus personagens de sotaque originalmente aristocrático. Uma forte alternativa aos sarados de Velozes e Furiosos e demais produções do tipo pegação e violência em Nova Iorque.

Mas a vida fora do imaginário e das telas não é nada disso e o que a gente encontra é um bando de meninos E aí, vamos sair?, cuja postura vai do tímido não me beija senão apaixono e saio correndo ao brega-carioca que te chama de princesa e te dedica um pagode na jukebox ou no videokê.

Daí que a idéia de sair com caras bonzinhos (já que evito personagens do tipo pagode e Whey Protein) pode também ser cansativa. Mas caras bonzinhos, em algum momento da vida, até que cansam de ser tímido-bonzinhos. Então, há esperança out there!

Assim esperamos… Porque essa ‘educação sentimental’ que vem dos filmes nem sempre funciona. Se é que em algum dia já funcionou. Talvez na época de nossos pais, onde aprendia-se pose e elegância com Cary Grant e alguma rebeldia e bons penteados com John Travolta e James Dean.

Blue-eyed boy meets a brown-eyed girl
Oh oh oh, the sweetest thing

Conheci Daniel em uma circunstância acadêmica. Cenário ruim, pois há todo um contingente de pós-universitários que deixam a libido em casa e não voltam pra buscar. Mas Daniel era daqueles garotos que já no primeiro oi ficam excessivamente vermelhos, e meu ego na época achou isso bonitinho. Então bora dar uma chance pro menino que durante o coffee break do evento anotou meu email pra que pudesse me encaminhar alguma coisa que diante de seus olhos azuis e sardas eu não sinceramente não ouvi.

Daí passou uma semana, duas, um mês, e quando chegou o tal email eu já tava achando que era spam ou mensagem de algum peguete de festinha esquecida. Não, não era um peguete ainda, mas concordei em sair com o menino, que ficou vermelho e brindou com Bohemia o primeiro parágrafo deste texto.

A questão é: nada contra meninos tímidos. Mas, como tudo na vida, é preciso aprender a jogar com isso. E jogar da ‘maneira certa’, afinal, o behaviorismo que a gente aprende na escola taí pra isso, pra nos fazer entender… ou melhor, responder (ainda que desengonçadamente e com pouco sucesso) às respostas do outro que tá dividindo o bar com a gente.

Porque o importante é o clichê da tentativa. Sair correndo não evita apenas o sexo ou quiçá um singelo beijo; não tentar é deixar de conhecer esse alguém que, mesmo que não se torne um amante, por alguma circunstância desconhecida do destino está exatamente agora na sua frente, dividindo uma palestra ou uma cerveja, e compartilhando alguma inesperada afetividade contigo.

Deveríamos desde cedo aprender a não idealizar Hugh Grants. Porque Hugh Grants podem um dia querer uma vida menos acadêmica, tímida e perfeita, mas isso é algo que nem as mulheres e muito menos o cinema dizem pra esses meninos. Daí acontece isso, eles sorriem e mandam um email, e você fica sem jeito de dizer pro Hughinho que é ok não transar e muito menos se apaixonar, e que ele não precisa sair correndo por conta disso. Afinal, há infinitas formas de se estar junto. A gente só não tá é muito acostumado a viver assim…

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Hey, Jude (judia de mim, judia)

hey jude

Nossa… você tá diferente!… Depois de uns três meses sem cruzar as fronteiras do décimo primeiro andar de escritórios onde trabalho, premeditei uma visita a um dos poucos locais propícios a uns cinco minutos de socialização (isto é, o andar com varanda para o Marlboro e uma bela máquina de cappuccino), onde, diga-se de passagem, com grande probabilidade encontraremos os caras-de-empresa coroas e bonitos e não stalkers. Poisé, certamente não stalkers, até porque Alice é ainda uma intrusa na hierarquia de cargos e salários e socializações em recintos do tipo George Clooney e cafeterias da empresa.

Pois bem, resguardados maiores detalhes profissionais nesta narrativa (todo um apelo à primeira segunda quinta whatever emenda), há um moço (não necessariamente novo) com quem eventualmente socializo, em uma regularidade de caráter tenso, com direito àquele abraço e beijinho de cumprimento. Pessoas de humanas quando encontram os outros três ou cinco exemplares de humanas da empresa (certamente coroas e amém heteros ainda) permitem-se desalinhos assim. With a little respect, claro, porque não dá pra sair pegand… socializando em abraço por aí não. Vai que a chefia tá acompanhando o big brother das não-foucaultianas câmeras dos corredores. É complicado isso.

Enfim, depois de uns três meses sem flertar junto ao cappuccino da elite, a idiota da Alice conseguiu em quatro palavras revelar às câmeras e ao tal bonito de humanas grande parte de sua patética pós-puberdade e fetiche por caras mais velhos. Nossa… você tá diferente!…, foi o que espontaneamente consegui balbuciar quando de cara com um novo par de elegantes óculos redondinhos nada John Lennon, seguido de um cabelo decididamente ondulado e uma barba muito estrategicamente grisalha. He-heeey Alice, tudo bem com você, linda? Cadê meu abraço hein?. É… Um a zero pra você, coroa bonito.

Meu caros canalhas leitores, como proceder numa situação dessas? Porque assim, o cara é um tipo que interage com a empresa em situações muito além do cappuccino (ah, as fofocas de corredor… tsc tsc). Vamo agora, vamo com charme, vamo sim? Não sei, viu.

Pois bem, pra dizer que modéstia nenhuma eu já tive, dia desses coloquei meu melhor jeans com salto e um chapéu preto, como se invocasse todos os olhares da máfia e do mercado financeiro. E homem olha pra bunda com jeans com salto, não tem câmera ou superintendente que impeça este feitio masculino. E te dizer que esta tão mera mortal Alice é de poucos jeans com salto e acessórios nada discretos, mas neste dia eu invoquei todos os tutorias de revistas femininas e decidi ir assim, dressed to kill. Efetivamente? Peguei ninguém não, mas o bonito de óculos e barba grisalha me acompanhou do martini ao elevador (poisé, tava rolando eventinho na empresa), seguido de um bora que te deixo na esquina de casa.

Em meio a umas quarenta amenidades mezzo-etílicas e algum cd de rock antigo, pensei em todas umas também quarenta possibilidades de acontecimentos e não acontecidos com este moço que tava alegrando meus humores meu culote e meu ego.

Só sei que eu despedi do moço com um pedaço de abraço e um advil na mão. Poisé, tenho que entregar um layout amanhã… É… Na próxima a gente fica só no café… É… só no café… Um beijo, linda, melhoras. Beijo, boa noite.

nespresso

Só sei que eu voltei pra casa com uma libido esquisita. E com toda uma vontade de trocar meu jeans mais caro por uma máquina de cappuccino.

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alissia

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Porto seguro (e eu dizia ainda é cedo)

É… é isso. É, é bem isso. Eu sei… Tudo bem então? É, tudo… Que bom, Alice… É, tá tudo bem.

E foi num monólogo assim que nos encontramos. Como se desconhecidos até então, em um mundo que o outro não disse e não poderíamos dizer; foi numa vida monótona, que outrora uma e novamente agora duas, foi num tumulto desses que nos encontramos.

Porque é preciso enxergar de longe; semana que vem ou hoje talvez você escreva e eu ainda não o veja; tudo tão perto ainda.

eternal-sunshine-of-the-spotless-mind

Outubro de 2008.

Oi!…, queria falar com você… Oi!… então… fala. Tudo bem? Tudo bem, e você? Eu… eu já não sei…

Eis o primeiro dia, de inquietas mãos e brados cardíacos. Havia muito a ser dito, mas éramos todo não-dito.

Até hoje, eu diria.

Até ontem, eu diria.

Sei que ela terminou
O que eu não comecei

De um jeito que não entendo, B. Gosto quando me chama de Bê, Alice.

E tudo ficou tão perto demais. Ensimesmados em pele e corpo e sentidos, perderam-se em si mesmos. Até o dia em que sumiram e reencontraram-se na despedida.

Há dias em que é preciso abandonar o porto.

Lost_in_Translation

Outubro de 2013.

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alissia

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Me and Mrs. Jones

marvin gay e tammi terrell

Só sei que essa é das músicas mais intrigantes de todos os tempos. Billy Paul e sussurro no ouvido, quem nunca?

Clique para acessar o discman de Alice.

Um viva à vida que se desdobra e recorda e se acoberta! E uma grande saudação a todos os sentimentais canalhas que se retorcem nas sílabas deste grande clássico da discografia canalha!

Holding hands, making all kinds of plans
While the jukebox plays our favorite song

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alissia

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Alice’s day off (ou Enciclopédia Ilustrada de Férias)

Aniversário + nem sempre sol + férias = Alice, curtindo uma boa sessão da tarde, com longas noites de vodka, barba (er…) e gim. Eu poderia escrever um diário e/ou um Instagram mas ainda prefiro deixar as coisas não-ditas. Com ou sem bebida, mas preferencialmente com pouca bebida, que é pra não rolar uma ligação-vexame e/ou pegação com algum ex perdido.

curtindo a vida adoidado

Pois bem, férias é também sinônimo para listas. De coisas, lugares, pessoas, ócio, discos e livros. Alta fidelidade diz oi, mas vou citar um filme antiguinho, assistam também:

outsiders(Bande à part, 1964)

Aliás, ganhei de aniversário um livro desses de romancinho-sado, 50 tons só que sem vampiros.  E enquanto rasgava o papel dourado que embrulhava o presente, meu ex-peguete brindou a ocasião com um beijo no rosto e votos de Espero que goste! Vai apimentar tuas histórias!. E eu pensando onde foi que eu errei com esse menino.

Stereophonics(O tédio do dia seguinte. Ou do mesmo dia.)

E por falar em beijo, quero dar os parabéns a todos os meninos que um dia aprenderam a arte de perfumar a barba e/ou o pescoço na medida certa! Porque não basta infestar a mocinha com a tua fragrância. Tem que ser sutil o experimento. E em alguns dos Parabéns, Alice! recebidos, percebi uma boa safra de cheiros novos e abraços cítricos. É… Estariam os meninos deixando de ser apenas meninos? Taí algo digno de constatação. E pulga atrás da orelha. Mas não importa, continuem assim, meninos! Que se um dia faltar assunto com a mocinha, é só chegar junto que alguma mínima coisa pode de repente acontecer.

Até a volta, pessoal! Que a semana de todos seja saudável! E que o fígado e os amores estejam prontos para o próximo happy hour, skype ou sexta-feira. Beijos.

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alissia

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Quando o amigo casa (Don’t stand so close to me)

– Só tu mesmo, Alice. Porque a Laura implica demais com mulher!
– É, ela me atur… respeita porque nunca fiquei com você.
– Poisé, a gente não se pega, não se chama de migu, fofo, mimimi. Só não tem porrada mas é quase né haha.
– Quase. Canalha, mas com carinho. Até porque se eu te chamar de migu vou ter que mudar meu nome pra Laura, então deixa quieto.
– Poooooo Alice, não zoa. To apaixonadaço…

Sobre o óbvio: a namorada do teu melhor amigo será um espécime sempre muito diferente. Diferente de todo o grupo e totalmente o oposto de você. Como naquele filme da Julia Roberts onde você se torna a melhor das melhores amigas e, pra piorar, a madrinha do desquit… casamento. Eu admito que nunca foi fácil entender os desbravamentos sócio-sexuais e não raramente matrimoniais de meus melhores amigos. Mas eu tento conviver, juro. Tento até não deixar a menina deslocada nos shows das bandinhas que ela não conhece mas que acaba indo só pra não deixar o namorado sozinho (com a melhor amig…). Certa vez até expliquei pra uma das gurias “quem era” o tal dos Ramones das malditas camisetas-modinha. – Ahhhhh, é aquela banda do cara com cabelo na cara, tipo samambaia! Seeeeeeeei, valeu, Alice!.

Eu tento interagir, juro.

My-Best-Friends-Wedding

Mas nem seria o caso de desenvolver um segundo óbvio, a coisa do ciúme-posse adolescente e/ou desde a adolescência por conta de uma idealizada e mal resolvida paixão pelo melhor amigo. Porque eu acho que é bem possível em algum momento da vida curtirmos alguma espécie de tesão e/ou massagem no ego e/ou as duas coisas apenas pela bonanza de se ter alguém pra estar junto ainda que não envolva sexo. Poisé, não sei é algum sintoma de minha não-tenra idade hoje ou se por conta de meu-pouco-desespero-aleluia, mas até que tenho amigos assim, do tipo não-to-a-fim-de-transar. Bom, pelo menos até hoje.

Mas até que é bom isso. Isso de te amo seu lindo, mas não rola. Não rola porque se pensarmos demais já vai começar o mimimi e a coisa do vamo ficar junto e ter um filho – e o que eu conheço de cara que cisma que tá velho com 29 e já quer uns 3 filhos… Canalhas do meu Brasil, que neura é essa de ter filho aos vinte e nove, me explica?. Bem, já que o assunto é complicado, bora equacionar a vida de modo prático, mero e simples:

– É amor ou é sexo, Alice?
– É amor ou é sexo, Alice.

(Não, não vou postar aquela música da Rita Lee não. Música chata.)

say anything

Mas voltando. Temos então dois problemas: 1) Como lidar com a namorada do melhor amigo?; 2) Como lidar com o fato de nunca termos sido namorada do melhor amigo?

Lembrei de Bruno, um dos muitos garotos que na juventude dos vinte e dois e da Universidade já era noivo. Bruno era mesmo um cara muito sério, desses de levar a noiva até a porta da Letras e voltar atrasado pra aula em um eterno sorry ladies mas sou um cara sério.

Bruno tinha muitas amigas mas delas se afastava quando a noiva aparecia lá na Comunicação para cumprir o então papel de legítima defesa do estruturalismo matrimonial. E deu certo, porque a vida seguiu com diploma e sem melhores amigas, e o que eu soube de Bruno é que hoje ele tem um bom emprego é pai de Olívia.

Já meu amigo que casou e divorciou-se de Laura (poisé, que bom!, mas ele casou de novo) nunca privou-se de amizades. A diferença é que ele era sarcástico e sincero com as amigas: – Te valoriza, menina! Fica agarrando qualquer cara não, ainda mais se esse cara for teu amigo…

O que pode por um lado ser cruel, muito cruel! (já que você-menina somos condicionadas a sermos ‘meio menino’ pra assim nos aproximarmos destes espécimes noivos casados ou mal resolvidos), por outro, pode ser uma oportunidade para vivenciarmos sentimentos e relações ‘menos confortáveis’, onde as fronteiras entre o amor a amizade e o sexo não sejam assim um fardo, e tampouco indiscerníveis.

Lost In Translation

Everybody’s gotta learn sometime…

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alissia

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Keep the faith – Sobre Bon Jovi, Futebol e Fé

Eis uma história que começa em Antonio, um dos muitos caras da escola que diariamente vestiam uma mesma camiseta. Dentre os grupos alinhados por indumentárias do Nirvana, Bon Jovi ou Pearl Jam (estamos agora nos anos 90), ou ainda homenagens a Bob Marley ao fumo e ao Reggae, Antonio escolhera um terceiro grupo, o dos torcedores de futebol, onde com o peito estufado compartilhava sua paixão pelo Fluminense.

Já a população feminina deste recanto estudantil dedicava seus hormônios aos atletas das seleções de vôlei, basquete e tênis. Curioso, mas não lembro de minhas amigas com camisetas de futebol, ainda que grande fosse a diária pegaç… veneração por esses “meninos de torcida”. Enfim, continuemos.

Fora a vontade de pertencimento e/ou exercício da sexualidade junto a sujeitos de mesmo gosto e vestimenta, esse andar em (seleto) bando era também uma indiscutível forma de partilhar uma juvenil idéia de crença, de “materialização” desse algo-que-não-sei-bem-o-que-é-mas-que-me-satisfaz-e-deixa-feliz. Ainda que com toda a discórdia e confusão que vem de brinde, é verdade, mas o que importa é encontrar essa tal coisa que faz feliz e é isso.

Não acho bobo relembrar destes muitos sentimentos bem demarcados (e por vezes esquecidos) lá na adolescência – até porque boa parte da vida diária é e será ainda feita de um tanto de coisas que a gente simplesmente ama, tolera e/ou odeia, e muitos de nossos convívios seriam mais fáceis se administrássemos e admitíssemos isso.

the breakfast club

Um exemplo superficial mas que pesa no coração, no sexo e na consciência: imagine você de vodka, franja e óculos retrô na festinha, toda animada ao som da bandinha tributo aos Beatles. Aí do nada um bonito do tipo fortinho se aproxima e manda o fatídico e aí, gata, posso te conhecer?. Daí você meio que se decepciona já que a balada é indie e o mínimo que você gostaria de ouvir era algum I wanna hold your hand, ou pelo menos um sorriso dos exemplares de barba e camiseta geek das redondezas. Mas não, quem chegou foi o tipinho carioca, provavelmente perdido em alguma comemoração do trabalho ou despedida de solteiro do amigo de infância, que suponhamos ser o tal do carinha que curte Beatles e que realmente gostaríamos de pegar.

Everybody needs somebody to love (mother, mother)
Everybody needs somebody to hate (please believe me)
Everybody’s bitching ‘cause they can’t get enough

Daí que neste mero exemplo realmente muito bobo nos denunciamos, e provamos que amamos e idealizamos um tanto de coisas que, até que “a vida prove o contrário”, serão exatamente assim, de um determinado jeito, sem muita elasticidade ou tolerância, tudo porque a gente ama demais, ou odeia demais.

Ou ainda: porque a gente é indiferente demais, há sempre uma “terceira” opção.

Mas voltemos ao Bon Jovi, à Fé e ao Fluminense.

soccer

Fico pensando se é por conta da percepção do tempo, que é sempre muito pouco pra caber muito trabalho e muita gente, que a nossa tolerância a cada momento diminui. Ou se é porque nossos ideais e idéias de gozo e crença não mais nos satisfazem, daí então nos deixarmos levar por essa tal “vontade destrutiva” (mas sem entrar em conceitos agora, pessoal; deixa Freud e seus amiguinhos lá prateleira) que só serve pra deixar o dia-a-dia com cara de briga de torcida.

Ao mesmo tempo, com toda a contradição desse alguém-Alice que escreve ao mesmo em que “re-forma” sua opinião sobre amor e ódio e tolerância, posso dizer que ao menos uma coisa me parece certa: é possível criar e/ou encontrarmos algo (seja um ideal/cosmo/pessoa/etc) que nos faz bem, e assim experimentarmos e acreditarmos nessa coisa porque esta simplesmente nos faz bem. Pronto. E daí então compartilharmos e falarmos disso, seja com os que usam a mesma camisa do Fluminense como com aqueles que gostam de ir pruma festa desconhecida só pra se divertir com o melhor amigo. Parece tão fácil quando a gente coloca assim, né…

Faith!: Dont you let your love turn to hate
Lord we gotta keep the faith

No final de contas, e sem muita conclusão ainda sobre tudo isso, parece-me que o tal Mundo pode ser bem mais simples se o entendermos como um agregado de histórias e ouvintes, onde cada um de nós constrói e escolhe e toma parte nestas mesmas infinitas histórias e ouvintes.

– Mas e se ele não curtir Bon Jovi ou for marxista? Ou se for assexuado e preferir pagode ao Clube da Esquina?

Lembremos de Antonio, que não deixava de ter melhores amigos em outras torcidas, e muito menos de ficar com gurias que mal sabiam a diferença entre o Flamengo e o Fluminense. Afinal, tudo o que a gente valoriza na vida pode instantaneamente ser visto como uma simples camiseta. Então, é preciso o tal do amor pra sobreviver a tudo isso. E a tal da tolerância. E também um bando de hits auto-ajuda porque isso também me/nos deixa feliz.

Quando o assunto terminar

Retira da bolsa um espelho, retoca os olhos e suspira. Enquanto o telefone não toca, um grupo de oito ou quinze garotos de vodka barata e campari nas mãos. Era domingo e a cidade era sua primeira companhia.

Alguns punks tentavam a sorte com meninas de all star e camiseta do Ramones. E aí? E aí. Beleza? Beleza.

Decidiu comprar pipoca. Do outro lado da praça, a multidão em direção ao ar condicionado e ao fast food do shopping. Calor demais em outubro.

A rua de camelôs escondia até suas sombras. Olha a promoção, tem óculos de sol tem bolsa tem iphone tem samsung tem pacote de amendoim!

Tentou não tropeçar nos populares e voltou pra pracinha. Calor demais e a mocinha de salto, pipoca salgada e esmalte vermelho.

– Tem horas, gata? – É… duas horas… ainda… – Valeu. – De nada.

Duas horas. Ainda. E a cada ainda lembrou do ex que também sempre atrasava. Culpa do trânsito, do namoro, da preguiça. Detestavam carros.

E a praça lotou de casais, desquitados e carrinhos de bebê. Não fora pelas crianças, até flertaria com o quarentão bonito que acompanhava o futebol de seus filhos.

Mas o calor era da Índia, e a maquiagem borrando e um moço cafona encarando. Antes só do que com um desquitado na pracinha.

– Aê tia, tem isqueiro?

Não respondeu ao punk, desligou o celular e seguiu pela cidade, entendendo que a vida só e em si também pode ser interessante e feliz.

You’ve got to find a way
Say what you want to say
Breakout

breakout

Feeling good e outras coragens

Pegou o café e gritou. Aconteceu no último domingo, dia de chuva e jogo do Flamengo, o episódio em que o senhor Oliveira abandonaria a cama, a mesa, a esposa e a poesia do Roberto.

Um casal pacato, na idade da aposentadoria, daí o estranhamento, onde já se viu, exclamou Dona Lucinha, deve é ter arrumado uma biscate no bar, já que como todo bom português dedicara sua vida ao comércio de alimentos para a alma e para o fígado.

Dona Maria de Oliveira não pensou duas vezes e às dez e quinze despejou na calçada um punhado de raiva e camisas do então falecido. Neste ritual de efetiva despedida, a rua indignada não chorou, e tampouco os filhos, que aos céus agradeceram por já terem um emprego e não ainda filhos.

É o tipo história que renderia um bom samba, mas a gente torce é pruma boa pensão, pra compensar a bravura de Dona Maria que acreditava que a dor não voltaria depois do casamento.

Daí hoje pela cidade, observando alguns poucos pares de mãos dadas, lembrei das muitas distâncias que viram traição ou quase-desquite. Ou as duas coisas, já que o não sei se o quero ou se volto pro ex é o que gente diz e ouve quase todo dia, e esse é um grande atraso para um relacionamento que já começa com essa cara de dúvida ou quiçá dívida. Ou as duas coisas.

(Salvo Dona Maria, que até ontem acreditou no para-sempre e no amanhã-de-manhã com bom dia.)

Pois bem, a metáfora do juntos vai além do grude e de alguma forma entendemos isso; mas quero é falar da coragem que vem do tombo, que nem sempre amoroso, mas da vida mesmo.

wa

Lembro de uma amiga que não deixou recado e sumiu por três meses. Férias de verão, o povo da escola de Carnaval e Skol na mão, mas cadê Julia, engravidou, fugiu de casa, ganhou na loteria?

Numa segunda-feira de março, em meio à ressaca do pós-fevereiro, eis que Julia e seu livros de pré-vestibular, magra e linda como nunca, colhendo baba e olhares de todo o colégio, ainda que nítidas fossem as dores de uma lipo e umas duas ou três modificações no nariz.

Mas nada disso importava, porque para os meninos status era maconha e academia, assim como para as meninas era o gabaritar em química e usar um jeans 38. Julia havia gasto a herança mas estava linda, então não havia com o que mais se importar.

Relevem esta adolescente ode à beleza, mas acho importante resgatar este fundo de estima que qualquer uma de nossas ações tem ou deveria ter – ainda mais se considerarmos que a qualquer momento o mundo do trabalho e o dos o homens (ou mulheres, conforme gosto) pode te dar um pé na bunda, independente de teus 40 ou 100 kilos.

Separação acontece tanto pra celebridade como pra tia portuguesa, e não adianta chorar que a gente tem é que aprender a lidar com isso.

eenmaal-cena2

Ainda sobre a perda, dia desses um letreiro de 80% off numa loja desestabilizou minha micropolítica. Às favas o conceito!, peguei o Visa e fui pra loja, porque afinal eu mereço e whatever mais uma dívida.

Pois bem, loja lotada e um sem número de mulheres, todas fingindo que 42 é grande então por favor um jeans 38 larguinho.

Dentre as mulheres de aparência normal, dentre as quais Alice e seu casaquinho lindo que na promoção sairia por 49.90, vejo uma mulher de salto baixo coque e um terninho de gerente, mas com toda a alegria de uma guria que gasta a mesada num vestido pro seu menino.

Fiquei intrigada com a naturalidade da mulher que em meio ao alvoroço da promoção iria é provar um vestido do tipo caríssimo.

O que isso tem a ver com estima, dirão, senão futilidade mercantil? Acontece que a moça virou-se e pediu que eu a ajudasse a pegar um cabide lá do alto. Seria um natural gesto em loja cheia, não fosse pelo braço esquerdo ausente em tão natural e bela mulher.

marilyn monroe

Te falta um fígado ou um marido? Esqueça os pares idiotas e a Psicanálise, não te falta é nada. Cuide de você.

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alissia

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.

Rock estrela

– Alô, oi.
– Bora ver um filme, Alice?
– Oi Bruno. Filme?
– Filme e cerveja. Ou café, que tu é nerd ainda, haha. To passando aí.

Bruno, o bonitinho que sonhava em ser Eddie Vedder mas cursou Artes Cênicas, onde com seus olhos verdes participou de uns três curtas que eu disse ter gostado mas menti.

– Então gata, vou tentar o mestrado pra Cinema.
– Mestrado? Cansou de ser bonito? Haha.
– Cansei de te conquistar errado, Alice. Se eu virar Godard, quem sabe…
– Se voltar a ser Bruno, quem sabe…

Quem sabe. Porque com Bruno qualquer encontro poderia ser pra toda vida. Só que a gente sempre se esgota um do outro e percebe que é só nesse amor de amizade que no futuro poderíamos existir.

– Um dia a gente se encontra, no meio do mundo
– No meio de todo mundo

b

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alicecs

Alice

Eu escrevo como um personagem dos anos noventa.