Quando o sexo de um é o chifre de outro

traindo

Guimarães Rosa já havia dito que “viver é muito perigoso”. Independente do lado que assumirmos no universo, seja ele sobre a proteção de Deus, Alá, Buda ou o grande Espaguete Voador, depois de um tempo começamos a perceber que o nosso senso de justiça nem sempre dá certo e que, muitas e muitas vezes, não basta ser legal para ter o beijo da menina no final do filme. O cinema estadunidense tentou e tenta, todos os dias, nos convencer que no final tudo termina bem e que, se por algum motivo, seja ele qual for, as coisas não aconteceram do jeito que esperávamos, a culpa é inteiramente nossa. Reparem como os personagens traídos e maltratados do cinema são responsáveis por suas próprias derrotas… são eles: relapsos, ou cruéis, insonsos e malvados, mas, se por algum acaso, isso acontece com alguma boa personagem, no futuro se dará a correção e esse sujeito receberá um rápido retorno do universo, com juros e correções. Naquele mundo, o Karma funciona como em nenhum outro lugar.

Por aqui a coisas são um pouco mais complicadas. A vitória sobre aqueles que nos oprimiram demora um tanto bom para chegar, em alguns casos, só na próxima vida, depois de passar pelo crivo e julgamento de São Pedro. Quantos conhecemos, pessoas boas e justas, que não tiveram lá o seu quinhão… a parte que cabia a eles nesse latifúndio? E a injustiça nem é responsabilidade de pessoas tão más quanto os vilões dos filmes [vocês já repararam que até em comédias românticas têm vilões?], por aqui o maniqueísmo não vinga tão forte também.

Acontece porque acontece… simples assim, “shit happens”, já dizem os nossos amigos do norte. Acontece, simplesmente, porque o meu senso de felicidade é interferido pelo senso de felicidade de outra pessoa, porque se dois jovens se apaixonam por uma garota, ela acabará escolhendo um deles [a não ser nos casos de Poliamor ou na Teoria da Branca de Neve].

Apesar do título [eu sei, ele serviu para chamar a sua atenção], meu ponto não é exclusivamente sobre traição, mas sobre todo acaso que rege o universo e a impossibilidade de sabermos se a sorte estará ou não ao nosso lado. No fim das contas, não dá para saber e tudo fica sob a indecisão de uma aposta.

aposta

Aí o querido e a querida leitor(a) se perguntam: e por qual motivos [diabos!!] eu serei uma pessoa legal? Obviamente minha resposta não será algo com uma premiação no final ou por uma compensação direta do tipo… “deu-levou” ou “tudo retorna em dobro”. Penso de forma mais matemática, seguindo um pouco do pensamento estatístico [só um pouquinho, já que eu não sou muito bom nisso].

O mundo já tem seus perigos, suas complicações.  A indecisão do futuro já tem sua enorme parcela de culpa na nossa ansiedade, deixando-nos sempre a mercê de nossas superstições e receios. Nunca sabemos se na próxima esquina encontraremos o amor de nossas vidas ou se uma bigorna cairá sobre as nossas cabeças [queridos pré-adolescentes (ou quando este texto for lido no futuro, pelos futuros adultos) nos tempos de desenhos politicamente incorretos, bigornas caiam na cabeça dos personagens, por isso da referência]. Agora, imagine toda essa situação e alguns vários, milhares, milhões de espíritos de porco tentando atrapalhar ainda mais a nossa frágil vida em comunidade. Difícil, né?

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eumanual

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico e social, atuou como coordenador de projetos em políticas públicas e hoje faz atendimentos clínicos e sociais.

Mineirin do interior, comunista e outras coisas obscenas… é tão barroco, mas tão barroco que a melhor frase para descrevê-lo é: “A incrível história de um homem e seu coração contraditório.”

Ps – Pois bem, mas no meio de tantas incertezas, queria dizer que, ainda assim, eu sou um otimista e já que iniciei com Guimarães Rosa e uma frase de efeito… nada mais justo que terminar com um pouquinho de alento e uma frase de outro gênio, Pablo Neruda, dizendo assim: “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida”. Mesmo sabendo que esse amor é, também, incerto.

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